quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Opinião - Limites da Ciência de Jorge Calado



Como nem só de pão vive o Homem também o leitor não vive só de livros de ficção. E verdade seja dita existem livros de não-ficção que são bem melhores que muitos livros de ficção. Ora sendo eu uma pessoa curiosa tenho especial predilecção por livros de divulgação cientifica e este "Limites da Ciência" de Jorge Calado foi a minha última leitura.
O título não deixa dúvidas quanto ao assunto que se "discute" nas suas páginas e a verdade é que este tema é da mais extrema importância não só dentro do meio cientifico como também (deveria ser) para o público em geral. Usando a linguagem que usamos no dia-a-dia qualquer leitor consegue ler e compreender facilmente a mensagem que o autor pretende passar. Em dados momentos quase parecia que estava a ter uma conversa com autor. O livro está estruturado em quatro grandes capítulos, mas a leitura flui sem "solavancos".

Uma das partes mais interessantes (não que tenham existido partes chatas), talvez por ser a mais desconhecida, foi o momento que o autor abordou a questão dos limites da ciência no que à parte financeira diz respeito. O facto de cada investigação ter de dar logo "frutos", que cada cêntimo investido tem de se multiplicar por dez ou cem ou mil vezes esse valor em alguma tecnologia pronta a ser vendida ao público é uma perversão da Ciência. As maiores descobertas da Ciência foram-no, numa primeira fase, apenas pelo prazer da descoberta, apenas por se ficar a saber um pouco mais sobre o Universo em que habitamos. Foi apenas ( em muitos casos) mais tarde que essas mesmas descobertas se traduziram em alguma tecnologia que veio trazer mais às nossas vidas. Isto, infelizmente, é cada vez menos lembrado. 

Será também uma leitura interessante para escritores que procurem saber um pouco mais sobre o mundo da Ciência e os seus (vários) limites, e quem sabe possa inspirar algumas (boas) ideias.  

É um livro interessante, escrito claramente para um público sem formação cientifica, mas que gosta destes assuntos (como eu) e que eu aconselho sem reservas para ler e reflectir. 


Titulo: Limites da Ciência
Autor: Jorge Calado
Editora: Fundação Francisco Manuel dos Santos

domingo, 28 de agosto de 2016

Opinião (BD) - Valentina de Guido Crepax



Existem livros para os quais não estamos preparados. Existem várias razões para isso. Uma é simplesmente não gostarmos, outra, talvez a principal, são as lacunas nos nossos conhecimentos o que nos impede de desfrutar na totalidade de uma obra.



Não sei qual foi a razão, mas a verdade é que não apreciei a "Valentina" de Guido Crepax. Gostei da Arte (a preto e branco). Sem ser exuberante cumpre, principalmente no que às formas femininas diz respeito, isto apesar de, e como é referido no prefácio de outro grande autor António Altarriba, Guido Crepax sempre ter negado que "Valentina" era uma BD erótica. Apenas posso tentar imaginar como seria uma série de BD erótica que ele quisesse fazer.
Talvez tenha sido o argumento (aparentemente) escrito sob o efeito de (muito) LSD, ou a original sequenciação das vinhetas que não obedece a nenhum padrão que eu conheça e que tornou a leitura confusa e (quase) impossível. Chegou o momento em que eu já só ia virando as páginas e (tentava) apreciar a arte, porque da história já tinha desistido. 



Talvez daqui a uns anos volte a pegar na "Valentina" de Guido Crepax e consiga apreciar quer as formas quer o conteúdo.



PS: Como sempre, nada como avaliarem por vós mesmos. Porque o lixo de um homem é a riqueza de outro.

Titulo: Valentina
Autor: Guido Crepax
Colecção - Novela Gráfica (vol. 2) n.º 9 
Editora: Levoir / Público
Tradução: José de Freitas - João Miguel Lameiras

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Opinião - A Esposa Minúscula de Andrew Kaufman



Diz o ditado que as pessoas não se medem aos palmos e o mesmo se pode dizer dos livros. Um bom exemplo disso é este "A Esposa Minúscula" de Andrew Kaufman com meras cento e vinte páginas, uma descomunal letra de medida doze (ainda por cima com muitas paginas ilustradas) e um tamanho que rivaliza com os livros de bolso (já vi livros de bolso maiores). Mas se o seu aspecto exterior é pequeno o que está lá dentro extravasa largamente a "embalagem" em que vem contido. A  história é peculiar, mas deixou-me (logo) curioso, mas nada como lerem a sinopse para julgarem:

"Um ladrão entra por um banco dentro armado com uma pistola pronta a disparar, mas não pede dinheiro. Em vez disso, exige a cada cliente o objeto que tenha para si maior significado. O ladrão parte e todas as vítimas do assalto sobrevivem, mas coisas estranhas começam a suceder-lhes pouco depois: a tatuagem de uma sobrevivente salta-lhe do tornozelo e persegue-a; outra acorda e descobre que é feita de rebuçado; e Stacey Hinterland descobre que encolhe, gradualmente, um pouco a cada dia que passa, e nada que o marido ou o filho possam fazer conseguirá inverter o processo. A Esposa Minúscula é uma fábula sobre como podemos perder-nos nas circunstâncias e encontrar-nos no amor de outra pessoa."


Pois é não é um convencional livro de Fantasia e só isso já me deixa curioso, mas se uma boa ideia é meio caminho para me prender foi a capacidade do seu autor para contar esta historia que me deixou rendido. O narrador é o marido de uma das vitimas deste (no mínimo) invulgar assalto. É através do seu conhecimento em "segunda mão", pois ele não estava presente no assalto e nem o presenciou de longe, o que ele transmite é o que a esposa sabe e lhe conta, que vamos descobrir as consequências deste singular assalto.
O que me marcou foi a mistura graciosa entre o quotidiano de uma vida como a que qualquer um de nós leva e o fantástico das situações que se vão sucedendo, como ter uma tatuagem de um leão que de repente ganha vida e nós persegue, e esta nem é a mais estranha...
Como será óbvio ficamos com a vontade de saber mais pormenores, como quem é o assaltante por exemplo, mas este sentimento não é diferente de ler uma livro de mil paginas, o leitor curioso quer saber sempre mais.
Existem livros que devido ao seu tamanho (mas não só) demoram bastante tempo a ler, mas dos quais nos esquecemos (quase) logo a seguir. "A Esposa Minúscula" de Andrew Kaufman é um excelente exemplo de uma leitura que se faz rapidamente (cerca de uma hora, hora e meia), mas que fica connosco muito para lá disso, e isso diz muito de um livro. Até a minha esposa, que é um pouco avessa ao Fantástico leu e gostou (muito) e este é o melhor elogio que posso fazer a um livro, mostrar que ele transcende o género em que nasceu e agrada a uma miríade de leitores. Portanto aventurem-se também.


Título - A Esposa Minúscula
Autor - Andrew Kaufman
Colecção - Bang! n.º 225
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Renato Carreira

domingo, 31 de julho de 2016

Tempus Fugit

O Tempo passa e nós passamos por ele sem dar por nada e quando damos conta a vida passou por nós e já somos velhos, tão velhos que a única coisa que nos resta são as memorias de uma vida sem Vida e todos os sonhos que outrora tínhamos não passam disso mesmo: sonhos, insubstanciais e inconsequentes.  É assim que eu sinto que que tem sido a vida deste blog, muitos sonhos, mas a vida tem passado por ele sem que ele tenha deixado uma marca na vida das pessoas. A culpa não a procuro noutro lugar que não seja ao espelho. Confesso que ideias não me faltam, falta-me é a capacidade de as colocar em pratica. A frustração de saber que temos uma boa ideia, mas não a conseguimos passar para o papel... bem é algo nem consigo descrever.

Apesar destes "entraves" não quis deixar de assinalar o quinto aniversario deste Blog, e claro dar os parabéns ao inigualável João Barreiros.

Um abraço a todos e quem sabe encontramos-nos por aqui.  

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O Ano começa em viagem por Acácia



Pois é o ano começa por terras de Acácia, até porque finalmente está completa, o ultimo volume saiu em Junho passado e os dois últimos chegaram aqui a casa no inicio do mês passado. 

As opiniões que tenho lido são ambíguas, portanto nada como ler para formar fazer a minha avaliação, mas pelo menos uma coisa sei, que irei ler os dois primeiros volumes pois correspondem ao primeiro livro original e eu já vi os efeitos que a divisão de um livro fazem quando se lê só metade de um livro: não se percebe nada. E agora vou ver para que lado pende a escrita do senhor David Anthony Durham.

Um bom Ano e boas leituras.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Opinião - Nos Limites do Infinito (antologia)



As Antologias e as correntes tem mais em comum do que à partida se podia supor. Quer uma quer a outra são tão fortes como o seu elo/conto mais fraco. Claro que ao contrario das correntes as Antologias podem ter muitos contos fracos, mas como diz Jorge Candeias no seu blog "Se numa antologia houver nem que se seja um conto bom, ela vale a pena, por pior que seja globalmente" e isto é algo que subscrevo. 
Com um titulo que promete explorar os limites desse enorme género que é o Fantástico a verdade é que no geral se fica (demasiado) pelo sobrenatural, mas isto posso só ser eu a ler demasiado nas entre-linhas. Todos os contos são (relativamente) competentes, mas à maioria falta aquele "salto" de genialidade que transforma uma obra de mediana em algo verdadeiramente arrebatador. Felizmente existe um conto que consegue esse feito raro: "A Colina que Olha para Ti" de Rui Bastos, que curiosamente (ou não) é de longe o mais novo autor a integrar esta antologia. As menções honrosas vão para "A Pele de Penélope" de Ângelo Teodoro e "A Casa da Rua dos Mirtilos" de Ricardo Dias. Mas vamos lá à minha opinião de cada conto:


"Sorte ao Jogo"de Ana Cristina Luiz - Este conto começou por me cativar por utilizar algo tipicamente português como cenário: a Taberna e também por recuperar alguns jogos mais tradicionais. O conto passa-se no que me parece ser um Portugal profundo e num tempo que tanto pode ser contemporâneo (que é), mas que facilmente se podia ter passado à meio século. Recuperar também as velhas lendas de um Diabo trapaceiro, mas não quero estragar (demasiado) a história. Foi pois com muita pena minha que chegado ao fim fiquei com incomoda sensação que este conto mais parecia um prologo de que um conto com principio meio e fim.

"A Pele de Penélope" de Ângelo Teodoro - Resumindo muito sinteticamente um homem apaixona-se por uma mulher com segredo terrível e mais não quero dizer para não estragar a descoberta aos leitores. A história é narrada na primeira pessoa, pelo homem que se apaixona e devo dizer que esta foi uma excelente escolha para contar a história pois permitiu guardar bem o fim.

"Memórias de Teddy" de João Rogaciano  - Tal como no conto anterior também aqui o autor optou por fazer do personagem principal o narrador, que não é mais do que um urso de peluche. Vamos acompanhar as aventuras e agruras do Teddy ao longo dos anos (e não são assim tão poucos). Infelizmente a "surpresa final" perdeu-se em mim porque já a tinha "visto" a "milhas de distancia". Não culpo (muito) autor, mas sim os muitos anos e leituras que já tenho acumuladas. Talvez este fim resulte em leitores menos versados neste tipo de leituras, mas para mim precisava de algo mais.

"A Casa da Rua dos Mirtilos" de Ricardo Dias - É um "simples" conto de uma casa assombrada, mas surpreende por trocar o habitual tom de terror e suspense por algo mais leve e engraçado. Todos os leitores mais inveterados (como eu) irão adorar (especialmente) o final com que nos iremos (de certeza) identificar.

"A Colina que Olha para Ti" de Rui Bastos. É o conto de que mais gostei e muito por causa da originalidade das ideias presentes, claro que também apreciei (e muito) a maneiro como o Rui contou a história com uma narrativa quase poética. Podem-me chamar louco (e é provável que o façam), mas este conto fez-me lembrar Neil Gaiman (e melhor elogio será difícil), talvez pela imaginação que aqui encontrei e que também encontro nas obras dos escritor Inglês. Este conto também representou mais um raio de esperança no futuro da nossa Literatura Fantástica.

"Entre Estações" de Yves Robert - O sexto e último conto tem como protagonista um autor (o próprio?!) numa viagem de comboio entre Cascais e Lisboa igual a tantas outras não fosse o facto de repara pela primeira vez numa "casinha cor-de-rosa" e num impulso decide visita-la e quem sabe encontrar a inspiração para um historia que precisa desesperadamente escrever. Embora tenha sido "decentemente" escrito foi demasiado previsível na historia que escreveu, faltou-lhe um pouco de "sal".


E eis nos regressados ao inicio e à pergunta que aparece disfarçada no principio: será que esta antologia vale a pena? E a minha resposta não pode ser outra que: vale sim, vale muito a pena.

Uma nota final: ao Rui Bastos o pedido que não pare de escrever pois é um autor que não só demonstra um imenso talento como faz falta ao Fantástico nacional mais uma voz que mostre não só que ele existe, mas que é diverso. E à editorial Divergência que continue o excelente trabalho que tem feito na promoção da Literatura Fantástica nacional apesar de todas as dificuldades que eu tenho a certeza que enfrenta sendo um pequena editora, mas que luta como pode pelo que é nosso. Não desistam porque vocês são muito necessários.


Se vos despertei a curiosidade (e espero que sim) então nada como encomendar já no site da Editora Divergência (e já agora deixarem-se tentar pelas outras coisinhas boas que eles tem por lá...).
Para os que gostam de ter a sua copia autografada pelo autores então amanhã tem duas possibilidade: em Lisboa na Biblioteca de S. Lázaro pelas 14H30, ou então em Torres Vedras na Junta de Freguesia de S. Maria, S. Pedro e Matacães pelas 18H, mas informações neste link: Lançamento da Antologia "Nos Limites do Infinito" em Lisboa e Torres Vedras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

De Regresso ao Futuro ou como um filme pode mudar uma vida



Hoje tudo o que é media (rádio, televisão e internet) fala sobre os filmes da saga Regresso ao Futuro (Back to the Future). Peças jornalísticas nos jornais, rádios e televisão e certamente (muitos) post's em blogs, facebook e afins mais ou menos elaborados, com maior ou menor interesse em que exploram o que o filme acertou e o que falhou, as peripécias das filmagem, etc. Hoje todos recordam a imortal saga cinematográfica de Robert Zemeckis, em que Michael J. Fox deu vida a Marty McFly e Christopher Lloyd encarnou "Doc" Brown. Hoje vamos ver isso tudo, mas à maioria do que virem faltará uma ligação mais profunda.



Para mim Regresso ao Futuro foi mais do que um mero filme que vi e gostei. Ele tocou-me e ao fazê-lo mudou-me. Vi-o pela primeira vez naquela fase impressionável que fica entre o fim da inocência da infância e a tomada de consciência de como é o mundo que é a adolescência (e não, não o fui ver ao cinema, sou um pouco mais novo que isso).



O filme marcou-me porque foi o primeiro que me fez pensar, reflectir, não o mero imaginar da infância, mas verdadeiramente pensar sobre esse fascinante tema que são as viagens no tempo. A isto não será certamente alheio o acontecimento trágico que tinha ocorrido algum tempo antes na minha vida. As viagens no tempo abriram-me as portas da imaginação fazendo-me pensar "E se?".



Escrevi as minhas teorias nas folhas de uma agenda e que ainda hoje devem estar guardas num caixa no cemitério das vidas passadas que são os sótãos. Lembro-me de um episódio caricato: deveria andar no sétimo ano e estava no liceu a escrever e a aperfeiçoar as minhas teorias de viagens no tempo quando um aluno do décimo primeiro ou décimo segundo me apanhou o caderno, pensei que estava tramado, pensei "ele vai ler e rir-se de mim e contar a toda a gente". Começou a ler e foi avançando sem um comentário e uma expressão de concentração. No final passa-me o caderno e diz-me "Muito fixe". Já não me lembro se disse alguma coisa ou se fiquei mudo, mas lembro-me de pensar que se ele, que era mais velho, gostava daquilo talvez houvesse alguma coisa ali digna de perseguir. Não persegui nada daquilo claro.



Talvez se tivesse tido algum incentivo hoje fosse um físico a procurar saber o quão certo ou errado eu estava. Não me tornei um físico e também não me tornarei, mas fiquei a adorar a Ficção Cientifica e a Ciência. E quem sabe se por causa desta minha paixão não irei contagiar algum elemento da geração que agora nasce a tornar-se na pessoa que criará as viagens no tempo? E quem sabe se numa linha temporal alternativa eu, por causa deste filme, não me tornei no cientista que criou as viagens no tempo? Quem sabe...