segunda-feira, 1 de abril de 2019

Opinião - Bastet de Mário de Seabra Coelho



E é com este conto do Mário de Seabra Coelho que se fecha esta primeira antologia cyberpunk totalmente em Português e como leitor melhor final não se podia pedir.

Adorei como o Mário preparou o "terreno", como nos deu a conhecer as personagens, a caracterização das mesmas, o facto de não se ter deixado dominado pelo politicamente correcto e ter criado personagens reais que falam como nós (a esta altura já devem ter inferido que o meu personagem preferido, se tivesse de nomear um, é o Lope, o facto de (quase) partilharmos o mesmo nome é apenas uma feliz coincidência).

A (boa) Ficção Cientifica tem esta característica de nos fazer reflectir sobre o Futuro no Presente e o tema escolhido não podia ser mais pertinente e actual, afinal a questão da banalização do conhecimento e da tecnologia não se vê muito discutida pelo publico em geral, mas devia. Quando temos a banalização das impressoras 3D, do sistema CRISPR ou no caso deste conto de Inteligente Artificial (IA), não pensamos nas consequências do que podem dai advir. Gostamos de nos concentrar no lado bom que essas tecnologias trazem e tendemos a esquecer ou ignorar os aspectos negativos, os perigos que acarretam consigo. O caso que o Mário relata no conto como o primeiro incidente com uma IA é quase cómico, mas demonstra bem os perigos que as IA podem trazer consigo.

Outros dos temas abordados, de modo tão subtil como cómico, é a nova vaga de cépticos das evidencias da ciência. O movimento anti-vacinas ou os que acreditam que a Terra é plana, são apenas dois exemplos dos muitos que infelizmente existem.

Faço todos este elogios mesmo sabendo que o Mário é da opinião (agora) que a "história teria ficado melhor se tivesse sido um pouco limitada, porque o início é arrastado" e que é algo que "ainda pesa "(coisa que me disseram e eu na altura discordei arrogantemente e devia levar um tabefe). E talvez ele tenha razão, talvez esta história fosse melhor com as alterações que ele sugere, mas esta, como já perceberam está muito boa. E se, só se editasse uma história quando estivesse perfeita então não se publicava nada porque haveria sempre algo a alterar, falo por mim que apesar de só escrever estes textos acho sempre que nunca está bem, que com uma alteração aqui e ali ficava melhor.

Resumindo e concluindo um excelente conto a fechar uma incrível antologia. E agora sou a dizer que mereço uns "tabefes" por não a ter lido antes.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Opinião - Alma Mater de José Pedro Castro




Lisboa, num futuro relativamente próximo, tomada (ainda mais) pelas grandes corporações e onde as assimetrias são ainda maiores. Onde os ricos vivem nas suas torres de vidro (bem) acima da ralé e dos vários gangues que governam a favela que é a Velha Baixa. É aqui que vive Maria, uma velha senhora, dona de uma livraria num mundo onde (muito) poucos lêem livros. Vamos encontra-la a procurar Sanjay, um rapaz que já conhece à muito e que está desaparecido. Na sua busca vamos explorar um pouco mais a cidade, os seus habitantes e as diferenças para os dias de hoje. Ao mesmo tempo vamos descobrir o paradeiro de Sanjay e conhecer uma misteriosa personagem que terá um papel central no desenrolar da trama e no seu final.

É um conto muito interessante, mistura aquilo que eu espero de uma história cyberpunk com a tecnologia a ter papel relativamente central, mas sem nunca descurar o lado humano da história.

Um dos seus pontos fortes foi o autor ter ancorado a história na realidade portuguesa, ao invés de ter sucumbido à tentação de ter como palco Nova York ou outra mega metrópole, porque apesar de vivermos numa mundo cada vez mais pequeno não há nada como o nosso lar, leia-se o nosso país.

Outro ponto forte deste conto foram as reviravoltas e para mim a maior foi a última, em igual medida inesperada e chocante, mas ao mesmo tempo (muito) lógica e isso é algo que não é comum encontrarmos.

"Alma Mater" de José Pedro Castro é o penúltimo conto desta antologia e mais uma excelente adição à mesma.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Opinião - Y+T de Marta Silva



Este conto marca a estreia literária da Marta Silva e posso dizer sem reservas que é uma estreia (muito) auspiciosa.

Esta é uma distopia sobre um (pequeno?) mundo controlado por uma esfera(?). É igualmente a história de Y e T, amigas e amantes (?). Uma (Y) vive inconformada com a sua vida e vive para saber, descobrir o que existe para lá das paredes deste mundo, a outra (T) vive acomodada com o seu mundo e a regras deste. Existe desde o inicio uma espécie de embate ideológico e de perspectiva entre os dois ponto de vista, a curiosidade e rebeldia de Y e o desejo de integração e continuação de T.

Toda a história é contada da perspectiva de T e logo ao inicio começa-se a desenhar um fim inevitável que adivinhamos (muito) grave.

Foi um conto que me deu bastante prazer ler, principalmente pela qualidade literária e maneira de escrever da Marta Silva. A sua escrita tem algumas particularidades, embora não sejam originais, como não usar letra maiúscula, algo "roubado" ao escritor Valter Hugo Mãe, e se ao inicio se estranha logo se ultrapassa e passa-se a ler como se isso fosse algo normal. Gostei do uso que ela dá às analepses e prolepses, que mais do que servir para nos aguçar a curiosidade do que foi e principalmente do que está para vir acaba por servir, e muito bem, para levar este conto, de modo quase subtil, para o subgénero do cyberpunk, embora só no final percebamos isso.

Mais um excelente conto nesta antologia.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Opinião - Pecado da Carne de Carlos Silva




"Pecados da Carne" é o terceiro conto e é da lavra de um autor já conhecido por aqui: Carlos Silva.

Se os anteriores contos desta Antologia tinham no centro das suas tramas elementos claramente Cyberpunk, este não. Não quer isso dizer que seja despromovido desses elementos. Eles estão lá, mas são mais acessórios, mais como elementos decorativos que mesmo retirados não afectariam (muito) a história contada. Este aspecto não influencia a qualidade da história, mas coloca-la numa antologia cyberpunk já me parece algo questionável.

O conto em si é uma distopia que versa sobre um mundo onde uma doença devastou o mundo. Os governos caíram incapazes de fazer face à pandemia. No seu lugar emergiram grandes corporações com apólices de saúde que apenas os mais ricos podiam pagar, obviamente. Essas grandes corporações construiriam cidades assépticas. Como parte do controlo (muito) rigoroso que é feito a tudo, mas mesmo tudo, isso inclui analises aos esgotos. Ora isso irá revelar que algo não está bem nesta espécie de cidade estado. E o resto vão ter de ler porque não quero estragar a história.

O conto tem uma estrutura clássica com principio meio e fim. O Carlos não utiliza analepses ou outros "truques". O final é interessante, mas para quem anda por cá há já tempo suficiente não será propriamente uma surpresa.

Tirando a falta de mais elementos cyberpunk entrelaçados na narrativa principal é um conto limpo e directo que se lê muito bem embora sem surpreender.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião - Modulação Ascendente de Júlia Durand



O segundo conto da antologia Cyberpunk Proxy é "Modulação Ascendente" da Júlia Durand.

A realidade de Irissa (Íris) é bastante familiar: ou se é (muito) produtivo ou é-se despedido com a agravante de a empresa denegrir o nome de quem despede tanto que outra nunca lhe dará emprego com todas as consequências que isso acarreta. Irissa, assim como todos os seus colegas é obrigada a ter ambição, de fazer por subir pela escada empresarial quer queira quer não. As suas motivações não se ficam pela mera comodidade em não querer abdicar da vida, mais ou menos desafogada, que leva. Isso também faz parte, claro, mas muito mais importante são as consequências que isso teria para a sua cara metade.

O contraste com o primeiro conto (Deuses como Nós de Vitor Frazão) é como da noite para o dia.  Se no primeiro temos a típica acção com corridas desenfreadas, armas a serem disparadas e munições a voarem por todos os lados, neste vamos encontrar um ambiente mais "calmo" (atenção às aspas). Não é uma história menos tensa e densa por isso, afinal temos vidas em risco apenas de uma modo diferente.

O final deixa algo no ar, como se houvesse algo que ficou por explicar ou um mistério que precisaria de outra tantas páginas para ser revelado. Ou então foi só a minha imaginação a trabalhar e a pregar-me uma partida. 

Não quero revelar muito, para não estragar a história a futuros leitores, mas ficou bem patente a habilidade da Júlia Durand e o porquê do Anton Stark ter seleccionado este conto para esta antologia.

domingo, 3 de março de 2019

Opinião (BD) - O Cão que guarda as Estrelas



Hoshi Mamoru Inu - Em tradução literal, "O Cão que guarda as Estrelas". É uma expressão Japonesa usada para descrever alguém que quer algo impossível. A origem vem da imagem do cão que fica a olhar o céu como se desejasse as Estrelas.
Na Introdução de "O Cão que guarda as Estrelas" de Takashi Murakami, edição JBC Portugal

Neste "O Cão que guarda as Estrelas" de Takashi Murakami não existe apenas uma história, mas várias que se vão intercalando e sucedendo. Começamos por ver como lentamente o tempo tudo muda, como o tempo vai erodindo tudo o que une uma família até não restar nada. A culpa é simultaneamente de todos e de ninguém. No centro disto tudo temos o cão Happy que entra na vida daquela família quando ainda está tudo bem e que a vai acompanhar até ao seu fim. Vamos assistir ao desmoronar da vida do Papá (é assim que lhe chama o Happy). Um homem que depois de um divórcio particularmente difícil fica quase sem nada. Sobra-lhe algum dinheiro, o carro e claro o Happy. Decide rumar à sua terra natal onde espera recomeçar, mas nunca lá chega. Isto é mostrado logo ao inicio, como que um aviso. Na viagem vão passar por muitos episódios, alguns tristes, outros felizes, mas o tom trágico nunca deixa de acompanhar a narrativa. E quando pensamos que a história acabou surge mais uma entrelaçada, naquela que acabamos de ler. O tom mantém-se trágico.  

Quanto à arte, achei que para uma história com um tom tão sério e trágico o desenho podia (deveria?) ter acompanhado, em vez de termos um traço algo caricatural, pelo menos aos meus olhos orientais.

É uma história que convida às lágrimas no canto dos olhos e quem durante a sua leitura, não ficar com os olhos pelo menos húmidos não é humano.

Este é um livro de sentimentos, é certo que, como já referi, o tom é trágico, mas também tem os seus momentos de alegria. É uma leitura mais pesada e os leitores mais maduros conseguirão compreender melhor todo o que se passa e assim tirar mais prazer da leitura. Não quero com isto dizer que leitores mais jovens não consigam também apreciar a história, acredito que a leitura irá enriquecer esses mesmo leitores mostrando-lhes e assim preparando-os para a possibilidade desses acontecimentos  

Título - O Cão que guarda as Estrelas
Autor - Takashi Murakami
Editora - JBC Portugal
Tradutor - não indicado

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Opinião - Deuses como Nós de Vitor Frazão



O primeiro conto da Antologia Proxy pertence ao Vitor Frazão com o titulo "Deuses como Nós".

O tom geral trás à memória alguns aspectos de "Neuromante" do William Gibson ou "Snow Crash" (Samurai: Nome de Código em solo luso) do Neal Stephenson como que a querer ancorar não só o seu conto, mas também o leitor à imagem que temos do que é o Ciberpunk. 

Somos brindados com uma cidade, Nova Oli, dividida entre os que tudo tem e os que de nada dispõem a não ser a sua vontade em viver, mas também entre a luz e a penumbra. É neste ambiente que vamos encontrar a antiquária (mas não só) Cleo Maltez que acaba por ser ver convencida a procurar Délio Ginjeira antigo sócio, e agora uma espécie de terrorista,  de Armando Zarco o todo poderoso dono de Ambrósia, Lda a empresa detentora do Elísio

Não quero revelar muito da história para a não estragar a quem ainda não a leu.

Num conto com cerca de quinze páginas alguma coisa terá de ser deixada, se não para trás, pelo menos para segundo plano e neste caso foi uma caracterização mais detalhada da cidade de Nova Oli e os seus contrastes como nos romances atrás mencionados. O Vitor Frazão nunca esquece isso e vai "metendo" onde pode esses elementos, mas acabam por saber a pouco. Compreende-se que o pequeno número de páginas a isso o tenha obrigado. 

O meu maior "problema" foram no entanto as analepses e prolepses. Apesar de ser um adepto da utilização deste tipo de "truque" se não forem bem urdidas na trama acabam por atrapalhar e frustrar mais do que fomentar a curiosidade e incentivar a leitura. Se as analepses das discussões entre Délio Ginjeira e Armando Zarco trouxeram luz sobre as motivações de cada personagem as de Cleo Maltez pareceram-me, não pela informação, mas pela maneira aleatória como foram colocadas, confusas.

Um bom começo desta Antologia Ciberpunk e um bom trabalho do seu autor que no seu todo se sai muito bem.