terça-feira, 4 de julho de 2017

Opinião - Quem tudo vê de Ricardo Neves

Capa Renovada

Júlio é um tipo que, como se diz na gíria popular, não joga com o baralho todo. Um dia ao ver o telejornal apaixona-se, embora dizer que desenvolve uma obsessão estará mais correcto, por uma jornalista chamada Alice. A partir desse momento não perde pitada da sua carreia em ascensão. Grava todos os programas em que ela aparece (principalmente os blocos noticiários) e guarda tudo quanto sai na imprensa escrita. Ao mesmo tempo perde a namorada e a sua "paixão" por Alice fica mais forte. Os anos passam e a sua musa torna-se pivot do telejornal. Eis que Júlio começa a receber na sua caixa de correio electrónico vídeos perturbadores de pessoas a comer outras pessoas em praticas (quase) rituais. Ora o que é que isto tem a haver com a sua obsessão com Alice? Bem vão ter de ler até ao fim para saber.

Primeira Capa

É um conto de terror (e gore), em que o que o autor soube manter o suspense mesmo até ao fim. Achei o final interessante. Apesar de o terror não ser propriamente a minha praia, gostei do li.

Este conto pode ser encontrado no Smashwords no link: Quem tudo vê de Ricardo Neves

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Opinião - À Hóme! de Joel G. Gomes



À Hóme! do Joel G. Gomes é um conto que mistura Ficção Científica e Comédia. O personagem principal é um português artificial: o andróide Tuga 2.3 (embora fabricado em Espanha). Um andróide que pretender emular o "típico" português num futuro (daqui a pouco mais de cem anos) em que uma praga dizimou (praticamente) toda a população da Península Ibérica. A história começa com uma perseguição ao 2172/3A1722l, ou 2172L para os amigos (se ele os tivesse), pelas ruas de Alfama. Depois de uma tentativa gorada de fuga e de uma épica e cómica tentativa de dissuasão dos seus perseguidores, que nunca chegamos a saber quem são ou o que pretendem, 2172L vê-se encurralado. Entre uma miríade de cenários em que "imagina" o que os seus perseguidores lhe farão e um fenómeno, na forma de uma barreira, que apenas os andróides conseguem ver e sem que saiba o que lhe possa acontecer ao atravessa-la, ele acaba por optar por esta última opção. Ao transpor a barreira acaba por vir parar à Alfama dos nossos dias, bem ao ano 2023 para ser exacto. Aqui passa por uma série de peripécias sempre tendo como pano de fundo aquilo que temos como a caricatura do que é ser português, seja mulher, mas principalmente homem.

Gostei de certas partes, de outras... nem por isso. Gostei das partes humorísticas, (há pessoas que são um bom garfo eu estou perpetuadamente pronto para uma boa gargalhada). Mesmo sendo baseado num cliché o Joel deu-lhe uma "voltinha" que achei interessante. Ficaram algumas perguntas no ar como por exemplo quem e porque é que foram criados estes andróides, ou porque raio é que haveriam de vir turistas depois do que aconteceu (embora esta seja mais fácil de responder: existem pessoas malucas em todo o lado e em todos os tempos). Ao longo do conto o autor foi deixando pistas de que me levam a concluir que este conto funciona em loop, ou seja o que aconteceu no passado vai influenciar o que se vai passar no futuro que por sua vez vai influenciar o que se passou no passado (parece confuso e é, mas eu já tenho "calo" nestas coisas).

E por fim o final. Achei que destoa do tom que o autor impôs ao resto do conto, ou seja, todo o conto é cómico e de repente o final assume um tom sério, como os filmes do Exterminador Implacável. Faltou aquilo a que no mundo humorístico se apelida de punchline (aquela piada que dá sentido(?) a todo) e que, penso eu, tinha ficado melhor e mais condizente com o tom do resto do conto.

Se ficaram curiosos podem seguir o link e encontrar na página do autor as várias lojas em que podem encontrar este conto: À Hóme de Joel G. Gomes e e outros trabalhos do autor.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tirar, começar e não acabar ou a história de leituras inacabadas

A quem é que nunca aconteceu deixar um livro a meio? Já terá acontecido a todos nós pelo menos uma vez e eu não sou excepção. Alguns leitores deixam as suas leituras a meio porque o livro em questão não desperta a sua atenção, a sua curiosidade o suficiente ou porque esperavam algo mais e preferem não perder o seu tempo com algo que, à partida, não os vai satisfazer e seguem para outro livro que esperam ser (muito) melhor. Parte de mim admira e reconhece alguma coragem nesse acto embora confesse que não me lembro de ter deixado algum livro a meio por esse motivo. Já tenho lido livros que à partida sei que não são grande coisa, mas consigo lê-los facilmente, por norma o único desafio é ultrapassar  o aborrecimento de um livro previsível e insípido. Já agora para todos os que se estão a perguntar o porquê de eu ler livros que à partida sei serem maus? São livros que chegaram aos tops (ninguém sabe como), como a saga Twilight da Stephenie Meyer, e para poder falar com propriedade tenho de os ler. Eu sei, eu sei, mas alguém tem de o fazer.

Mas existem outras razões para se deixar um livro a meio. As dinâmicas das nossas vidas pessoais, sociais e profissionais também podem influenciar a leitura (ou não) de um livro.

Eis que chegamos ao que me levou a escrever este texto e que é a principal razão que me leva a deixar (embora temporariamente) a leitura de um livro: não estar preparado para o mesmo. É uma razão que não se vê muitas vezes a ser assumida e discutida, mas acredito que tal como eu também outros leitores o fazem por esta razão. Ninguém gosta de admitir que não percebeu o que estava a ler. Não serão muitos os leitores que gostam de reconhecer, quer a si quer aos seus pares, a sua ignorância. Na Ficção Científica, por exemplo e especialmente na chamada Hard Scifi, é algo que acontece amiúde, como os seus estranhos conceitos e tecnologias que baralham e afastam a grande maioria dos leitores. Para leitores iniciantes poderá ser um mau local para começar precisamente por isto, mas afasto-me do tópico. 

Neste aspecto houve uma colecção que me marcou: Viajantes do Tempo da editora Presença. Hoje uma colecção morta e (quase) enterrada, foi a minha porta de entrada para a Ficção Científica e como tal também a minha primeira fonte de frustrações e livros deixados para trás (embora hoje possa dizer com orgulho que já os li a todos). Alguns li-os até ao fim, como os livros do Philip K. Dick ou da Ursula K. Le Guin, mas acredito que nunca os compreendi totalmente, e alguns tive mesmo de os deixar. Não são poucas as vezes em que olho para eles e desejo voltar a lê-los novamente, para, agora já mais maduro quer na idade quer na experiência literária adquirida, os poder verdadeiramente apreciar, mas divago novamente.



Dos livros que tive de deixar a meio, embora logo ao inicio seja mais correcto, pelas razão acima descritas encontram-se o livro de Neal Stephenson “Samurai: Nome de Código” (Snowcrash) um dos grandes e icónicos livros do Cyberpunk (e o primeiro da colecção), do Bruce Sterling “Schismatrix – O Mundo Pós-Humano” (Schismatrix Plus) e a trilogia de John C. Wright constituída por “A Idade de Ouro” (The Golden Age), “A Fénix Exultante” (The Phoenix Exultant) e “A Grande Transcendência” (The Golden Transcendence). Todos livros que mal os comecei a ler coloquei-os de lado. O livro do Bruce Sterling ainda lhe peguei duas ou três vezes naquela altura, mas com o mesmo resultado. Não foram apenas estes claro, houve mais alguns, mas estes ficaram-me na memoria.




Foram precisos mais de dez anos para lhes pegar novamente e os ler, mais de dez anos a educar o meu “palato literário” e que irá continuar a ser educado até ao dia em que morrer. Quando os li, e apesar de ainda ter muito a aprender, consegui não só lê-los como também apreciar as belas obras que são e que merecem uma releitura e quem sabe se um dia não o farei.




E agora revelo que existe mais um livro que vai para este lista: Galxmente do Luís Filipe Silva. Era suposto ter sido a minha primeira leitura do ano e em boa verdade foi com ele que logo no dia Um comecei, lendo as primeiras páginas, mas foi sol de pouca dura pois apesar de toda a minha vontade não consegui prosseguir com a leitura. O livro não foi para a estante, ficou na mesa de centro da sala, onde estão as minha futuras leituras, como uma lembrança das minha “obrigações”. Há cerca de dois meses voltei a tentar. É certo que consegui avançar mais do que da primeira vez, mas o resultado foi o mesmo. Neste caso não foi a falta de conhecimentos que me deixou “pendurado”, mas antes a “dinâmica”, leia-se uma falta de disponibilidade mental para o conseguir ler. Apesar de toda a minha curiosidade em ler este clássico da Ficção Científica Portuguesa, e ao fim de duas tentativas goradas acabei por “devolver” o livro à estante na esperança de um dia, mais cedo do que tarde, possa voltar a pegar nele e lê-lo de fio a pavio com a atenção e dedicação que merece. Não culpo o livro, nem este nem os outros que não consegui ler à primeira, ou mesmo à segunda tentativa, aliás não culpo ninguém nem nada, são momentos e fases da vida e como tal não vale a pena andar a martirizar-me ou a tentar arranjar desculpas esfarrapadas culpando o autor ou o livro ou o que seja. O segredo é não levar a situação demasiado a sério. Já aconteceu antes e certamente voltará a acontecer e de todas as vezes e sabendo de antemão que os livros valiam a pena voltei a eles mais sapiente e mais calmo e pude aprecia-los. Com este tenho a certeza que também assim será. 

domingo, 18 de junho de 2017

Lançamento de As Nuvens de Hamburgo de Pedro Cipriano

Hoje é um dia que certamente ficará na História pelas piores razões devido aos infelizes acontecimentos em Pedrogão Grande. Mas este é também um dia que ficará na memoria, mas pelas melhores razões, de todos quantos assistiram ao lançamento, na Biblioteca Municipal de Vagos, do livro "As Nuvens de Hamburgo" do Pedro Cipriano

O Autor e o estreante 


À hora certa lá estava eu para apresentação de "As Nuvens de Hamburgo" e não foi sem alguma surpresa que o Pedro, que conheci pessoalmente hoje, me convidou para me sentar à mesa dos "graúdos". Já tínhamos falado da minha "disponibilidade" (dito assim até pareço um tipo importante o que não é o caso) em apresentar o livro, mas não tinha ficado nada decidido. Aceitei, mas nunca tinha feito nada disto na vida e não escondo que estava algo nervoso por ter de falar em público. Felizmente correu tudo bem, ou pelo menos tão bem quando seria de esperar para um estreante: não gaguejei (muito) e tive um discurso relativamente coerente e igualmente importante consegui manter-me (quase sempre) centrado no livro, embora não tenha conseguido evitar alguns desvios, mas consegui sempre voltar (quando não fui "arrastado) ao livro. Foi agradável falar do livro, que como sabem foi uma leitura da qual gostei bastante, e poder elogiar o autor cara a cara. Foi como um conversa de onde saímos mais ricos com o que aprendemos. Fiquei saber um pouco mais sobre o que esteve por detrás do livro, as motivações e inspirações, enfim aqueles pequenos, mas importantes pormenores, que acabam por dar mais vida à história.

O leitor, o livro e o autor

Foi uma tarde bem passada em que tive o privilegio de conhecer não só um excelente autor, mas também outras pessoas igualmente simpáticas e talentosas e com quem espero novamente privar "ao vivo e a cores" num futuro próximo. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Opinião - As Nuvens de Hamburgo de Pedro Cipriano




Marta é uma estudante de História que vai para a cidade de Hamburgo na Alemanha, integrada no programa Erasmus, mas algo de estranho se passa pois ainda não desfez a mala quando observa da janela do seu quarto algo não deveria ver: bandeiras com a cruz suástica a adejar ao vento, mas tal é impossível! Não é? E com um piscar de olhos elas desaparecem... É assim que começa esta novela do Pedro Cipriano onde vamos acompanhar a Marta não só na sua aventura em que irá questionar a sua sanidade, mas também a sua atribulada vida pessoal. Desde a sua relação, extremamente atribulada, com os pais, que nunca viram com bons olhos a sua escolha de curso e muito menos a sua ida para outro país, passando pelos poucos amigos que consegue fazer, também eles estudantes de Erasmus, enquanto se adapta a uma nova cidade e a uma nova língua, tudo pormenores que ajudam a dar profundidade à personagem e a criar ligação com o leitor. Mas o foco da história são mesmo as suas alucinações (serão mesmo?) onde Marta é transportada para os dias da Segunda Grande Guerra. É fascinante vê-la a debater-se com esta situação peculiar, questionando a sua sanidade e como poderá separar as suas alucinações da realidade. Ao inicio as transições são tão confusas para a personagem principal como para o leitor, pelo menos para mim foram. Não se foi algo que saiu naturalmente ao autor ou se foi meticulosamente planeado, mas tenha sido uma ou outra a verdade é que isso resulta numa maior afinidade entre o leitor e a história, pois nós (os leitores) ficamos tão confusos como a personagem principal e com ela vamos descobrindo o que se está a passar e viver as angustias e prazeres desta nova fase na sua vida.

Foram duas as horas que demorei a devorar este livro, porque depois de começar não consegui parar de lê-lo. É uma história que puxar pelo leitor. 

O que faz deste um excelente livro? As personagens palpáveis e a capacidade em ter integrado tudo numa história real apesar da sua inegável faceta Fantástica. 

Uma nota final. Em Setembro de dois mil e treze dei a minha opinião sobre a Compilação de contos da Era Dourada e escrevei que "o Pedro deve rever e aperfeiçoar a construção das personagens e aos finais um segundo olhar para que sejam mais verosímeis, pois senti algumas reticencias ai" foi pois com prazer que eu vi que ele fez exactamente isso e esta história prova-o sem margem para dúvidas. Ninguém é perfeito, mas o Pedro mostra que com (muito) trabalho se consegue progredir na direcção correcta. Espero que ele continue a mostra os seu talento.


O lançamento vai ocorreu este Domingo dia dezoito na Biblioteca Municipal de Vagos pelas quinze horas. Para quem não conseguir comparecer irá também ocorrer o lançamento em Lisboa em data e local a anunciar. 


Para quem quiser ler a sinopse e mais importante fazer a reserva do livro é só seguir o link: Pré-venda "As Nuvens de Hamburgo"


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Opinião (BD) - Aprocryphus (volume um)

Capa do 1.º volume da autoria de Carlos Amaral


Aprocryphus é um projecto de BD de autores para leitores, sem filtros ou intermediários. Portanto quem comprar este livro está a apoiar directamente os autores. Isto não é propriamente algo novo. Com a facilidade de comunicação e visibilidade que a Internet, mas em especial as redes sociais, trouxeram, cada vez mais vemos autores a tentar a sua sorte sem terem de passar pelo "crivo" de uma editora convencional. Esta oportunidade de "ultrapassar" o selo de aprovação de uma editora significa que temos ao nosso alcance tudo, desde o pior que podemos imaginar passando por projectos que dada a sua especificidade nunca seria rentáveis para uma editora dita convencional, projectos como este, mas falemos dele.

Neste primeiro volume, e tenho a certeza que todos serão assim nem que seja pela natureza intrínseca do projecto, o que salta mais à vista, metafórica e literalmente falando, é o quanto ele é ecléctico, seja nos argumentos, seja na arte e isto apesar de "preso" a um tema, que neste primeiro volume é a Fantasia. São seis histórias, embora a ultima seja claramente de Ficção Científica, que muito me agradaram. Vamos poder apreciar histórias com inspiração na mitologia Árabe, seguida de outra que mistura quase todas as mitologia, desde a Cristã passando pela Grega, Hindu ou Egípcia, ou ainda uma que tem forte parecença (pelo menos assim me pareceu) com Conan o Bárbaro e muito humor, mas apenas para quem o souber ver.

Enfim tenho a certeza que  os apreciadores de BD irão encontrar pelo menos uma história que lhes aguarde. No meu caso foram seis em seis.

Este primeiro volume teve a mão dos seguintes autores: Nuno Amaral Jorge, Inocência Dias, Mariana Flores (Maria Mar), Rui Gamito, Miguel Jorge, Miguel Montenegro, Phermad (Fernando Madeira), Pedro Potier, João Raz, Pedro Daniel (Phobos Anomaly Design) e com uma belíssima capa da autoria do Carlos Amaral que também tem neste volume uma entrevista realizada pelo Nuno Amaral Jorge.

Este é um projecto que, para já, tem uma periodicidade anual sendo que se tudo correr bem e eu espero que sim, lá para o final deste ano teremos o segundo volume.

Para saberem mais sobre este projecto ou mesmo para adquirirem um exemplar, caso não tenham a sorte de os encontrarem em algum encontro de aficionados de BD, podem visitar o site do projecto em:

http://apocryphusproject.com

terça-feira, 9 de maio de 2017

Novos Talentos da Literatura Portuguesa? Quem e Onde?

Quem são os novos talentos da Literatura Portuguesa? A revista Estante, colocou esta mesma questão a "alguns dos mais consolidados autores da nossa praça" incluindo o "nosso" Luís Filipe Silva.

Confesso que algumas respostas me desiludiram. Parece-me que em alguns casos nem chegaram a ler a pergunta, ou então aproveitaram para fazer publicidade, ou isso ou eu tenho uma concepção de novos talentos (muito) diferente. Querem um exemplo? Mário Zambujal, autor da "Crónica dos Bons Malandros" dá como exemplo o  Gonçalo M. Tavares. Ora estamos a falar de um autor que já publica (e arrecada prémios) desde dois mil e um e que não tarda nada está a atingir a marca das quatro dezenas de livros publicados (a solo). E um dos dois nomes que o Luís Filipe Silva menciona é o do António de Macedo que já publica Ficção (para não ir mais longe) desde mil novecentos e noventa e dois. Repare-se que não está em causa a qualidade e o mérito dos autores, mas dificilmente os apelidaria de novos talentos.

Isto fez-me pensar quem são e onde estão afinal os novos valores da Literatura Portuguesa, mais concretamente os de Ficção Científica e Fantasia. Para melhor compreendermos quem podem ser estes novos talentos o melhor será começar por definir o que é afinal um novo talento. Vou balizar como novos talentos, os autores que independentemente da sua idade e meio de publicação (digital ou papel em edição de autor ou em editoras convencionais) começaram a publicar já durante esta década, portanto a partir de dois mil e onze. Naturalmente esta minha definição também poderá ser alvo de critica, mas não se pode agradar a "gregos e troianos".

A primeira conclusão a que chego é que se os queremos encontrar, dificilmente o vamos fazer nos catálogos das editoras tradicionais e/ou nas livrarias convencionais. Que novos nomes vemos nos escaparates? Poucos, muito poucos. E porquê? Não tenho a presunção de conhecer (todas) as nuances que pautuam o mercado editorial Português, mas olhando para o que por cá se vai publicando torna-se claro que é (muito) mais fácil ver publicado um estreante autor estrangeiro, quase invariavelmente de um pais de língua anglófona, do que um autor Português. E porque é que isso acontece? Mesmo sendo novo, um autor estrangeiro já traz consigo (quase) todo o marketing feito, desde prémios (pseudo)importantes a frases feitas elogiando a obra e/ou o autor de outros autores e/ou sites de livros passando por algum (possível) contrato para adaptar o livro ao cinema ou à televisão. Enfim como se costuma dizer na gíria popular: traz toda a "papinha" feita. Mesmo se juntarmos os custos da tradução e, claro, os direitos de publicação, que tanto quanto sei não são propriamente baixos, as editoras (parecem) continuar a preferir os autores estrangeiros.

Um livro de um novo autor Português, exclua-se as figuras públicas que são um caso à parte, tem de ser editado (não confundir com publicado), tem de ser publicitado, tem, ou deverá ter uma estratégia de marketing, que passa por exemplo, comprar espaço nas prateleiras das livrarias e grandes superfícies e tudo isto custa dinheiro e sem nunca se ter a certeza (pequena ou grande) de que o autor irá ter sucesso. Repare-se que a qualidade do autor não é para aqui chamada.

Mas então não existem Portugueses a escrever? Não há quem escreva Ficção Científica e Fantasia na língua de Camões? A resposta a ambas as perguntas é um rotundo sim. Lembro que na segunda edição do prémio Bang! da editora Saída de Emergência, e segundo números da mesma, a participação de autores portugueses passou a barreira dos cem manuscritos. Mesmo se aplicarmos a Lei de Sturgeon que diz que "90% de qualquer coisa é lixo" ainda ficamos com dez livros/autores bons para publicar. Então onde estão eles? Um boa pergunta para colocar à editora.

Então onde estão estes autores Portugueses? Incapazes (impedidos?) de editarem as suas obras pelas editoras convencionais viraram-se para as muitas plataformas de auto-edição, ou que tenham essa vertente, existentes por esse Internet fora, como  a Amazon, Smaswords, Kobo, Wattpad e tantas outras e por lá vão tendo mais ou menos sucesso em muito graças ao "passa a palavra" nas redes sociais como o Facebook.

As editoras convencionais são agentes passivos e em conformidade com essa imagem e apesar de algumas mudanças (rápidas) a que o mercado tem assistido elas continuam fechadas nas suas torres de marfim à espera que os autores e os seus manuscritos peregrinem até si, ao invés de tomarem uma posição mais pro-activa, procurarem o que de melhor se escreve por ai e oferecerem a possibilidade a esses autores e livros de conquistarem novos públicos. E, felizmente, não falta autores, desde o inevitável Manuel Alves passando pelo Joel G. Gomes, pela Carina Portugal ou pelo Pedro Cipriano, (mas existem muitos mais felizmente). São autores que já deram provas da sua qualidade e de que são (ou serão capazes) de voos mais altos. E já agora uma pequena nota para os projectos onde novos autores dão os primeiros passos como o excelente exemplo que é o Fantasy & Co, entre outros.

A minha visão é a de que esta situação beneficiaria todos os envolvidos. Os autores ganhariam  um parceiro de peso nas editoras que além de disponibilizarem os seus manuscritos a um publico mais vasto (ao invés dos "suspeitos do costume"), ainda teriam um parceiro profissional na preparação dos seus textos, seja na edição, paginação, capas ou marketing. As editoras ganhariam um elemento diferenciador ao apostarem em autores portugueses pois ao editarem um autor estrangeiro podem estar a perder leitores/clientes que preferem ler em inglês, mas este é um assunto que terá direito a um texto próprio.

Com tudo isto não quero dizer que as editoras não queiram novos autores portugueses, até porque do lado do autores também existem muitos que, por variadas razões, preferem não ser editados por uma editora convencional optando pelas soluções acima referidas

Já tinha aflorado este assunto no texto "Manuel Alves – O escritor 2.0" (já nos idos de dois mil e catorze) e irei voltar a escrever sobre estas questões outra vez, pois considero-as da máxima importância para um saudável mercado literário.