segunda-feira, 6 de maio de 2019

Opinião - Somos Felizes de Sara Farinha



"Somos Felizes" de Sara Farinha fecha esta antologia "Por Mundos Divergentes". Este é um conto especialmente assustador porque a realidade descrita parece estar ao virar da esquina.
Somos apresentados a um mundo onde não se pode ser infeliz. As consequências de quem não "obedecer" podem ser... bem digamos que nada boas...

É neste cenário que vamos encontrar Bruno, um homem assolado pela morte do seu melhor amigo e que desobedecendo à lei assiste ao funeral. Impossibilitado de fazer o luto entra numa espiral de depressão, mas tem de a esconder.

Por todo o lado estão mensagens como "Somos Felizes", "Todos temos a obrigação de ser felizes" e com este tipo de "publicidade" fazer o luto torna-se difícil, para não dizer impossível. É neste ponto, em que é acossado entre uma depressão e as visitas de uma terapeuta relacional (que lhe faz avaliações psicológicas), que entra na sua vida alguém como ele. Confesso que pensei que estaria neste relacionamento uma espécie de salvação, mas... 

Foi um conto que adorei ler por várias razões. Primeiro o tema: hoje em dia quase que somos obrigados a sermos felizes, somos constantemente bombardeados com anúncios de vidas felizes e somos assolado por um sentimento de culpa quando passamos um "mau bocado" é por isso que afirmei no inicio que este conto é assustador. A segunda razão foi porque adorei a escrita da Sara Farinha. Apreciei bastante a maneira como ela conseguiu manipular as minhas emoções.

Este conto fecha esta antologia e pareceu-me um boa escolha para tal.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Opinião - Arrábida 8 de Pedro G. P. Martins




O autor, biólogo de formação, vai ai buscar o cenário para esta história. Uma nova e desconhecida praga assola os arrozais da baía do Sado e cabe a Aldo 9 e a Sofie 1 descobrir com a travar. Como será evidente as coisas não são assim tão simples e serão muitas as complicações a enfrentar.

Foi um conto que me deu bastante prazer ler por vários motivos. O mundo que o Pedro G. P. Martins criou é excelente com muitos pontos de interessante como o nome dos personagens e o que isso significa, o ambiente naquela que foi outrora a cidade Setúbal ou sistemas de créditos são elementos bem explorados pelo autor.

Outro aspecto importante é ele saber seguir a regra do "show don't tell", porque faz com que a história seja mais interessante, fluída e isso faz maravilhas pela leitura e pelo interesse do leitor.

Nesta mesma antologia já tínhamos um conto (Patriarca de Ricardo Dias) com reminiscência do clássico de George Orwell  "1984", aqui à (também) outro clássico a dar o ar da sua graça: "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley com varias piscadelas de olho a essa obra como os comprimidos soma...

Enfim só coisas boas a apontar.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Opinião - Dispensáveis de Ana C. Nunes



Existe uma fábula que conta a historia de uma aldeia em que era tradição levar os mais velhos e incapazes até ao monte, longe das pessoas e da civilização e deixa-los lá. Um dia um filho faz isso com o seu pai, tal como a tradição manda. Lá chegados dá ao pai alimentos e uma manta, o pai diz-lhe para cortar a manta em dois e o filho pergunta-lhe para quê e o pai responde simplesmente para ti quando for a tua vez. O filho ouvindo tais palavras pega no pai e leva-o de volta  a casa declarando que aquela tradição acabava ali. Acredito que tenha sido esta história a que Ana C. Nunes tenha vindo beber (parte) da inspiração para este conto.

Aqui somos confrontados com um Portugal num futuro não muito longínquo (o protagonista nasceu em 1979) onde os que não conseguem trabalhar, sejam eles novos ou velhos, ricos ou pobres, são dispensáveis e tal como na fábula acima referida são deixados num lugar remoto para morrer. O que levou a isto foi uma crise económica, primeiro a nível Europeu seguida de uma a nível Mundial, levando Portugal a uma ditadura de extrema direita. (Quase) Tudo isto é nos contado num monologo logo ao inicio, alias todo o conto é na primeira pessoa e isso ajuda a dar uma visão mais pessoal. Confesso que por um lado achei o monologo interessante, quase como se fosse uma conversa por outro existe lá fundo uma vozinha a dizer: podia ter arranjado maneira de mostrar isto.

Gostei da história e que apesar de bem contado achei que a autora podia ter dado mais ênfase a alguns aspectos, mas isso é já entrar pelas opções que tem de ser tomadas pelo autor e não quero ir por ai. 

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Opinião - Em Asas Vermelhas de Nuno Almeida




Recentemente vi o filme "Alita - Anjo de Combate" e as histórias de fundo são muito similares, uma guerra que destruiu o mundo, uma cidade onde ficou a elite e uma cidade que vive do lixo da primeira e onde ficou o resto da humanidade. Neste caso existe um acrescento de racismo, em que a elite são brancos, louros e de olhos azuis e os que ficaram na cidade de lixo são pretos.

Apesar de ter gostado do inicio comecei logo a ver uma pressa nada boa e que infelizmente se estendeu até ao fim do conto. Um exemplo disso é a personagem da Heidi, de menina mimada a um espécie de heroína foi um "abri e fechar de olhos" que não me convenceu. Bem sei que é um conto e que tem limitações de espaço, mas alterações de personalidade tão radicais em não se explicam com isso. 

Nota positiva para a escrita do Nuno, reconheço que tem muito potencial pena que a sua arte de criar e dar vida às suas personagens não esteja (ainda) à altura, mas nada que a pratica não possa melhorar.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Opinião - Patriarca de Ricardo Dias



Este conto faz, em certos momentos, lembrar aquela que é uma das mais conhecidas distopias: mil novecentos e oitenta e quatro de George Orwell. Mais que uma imitação é uma homenagem a essa obra (é mencionada nas suas páginas algumas vezes). O autor tentar dar um passo mais longe actualizando-a para as preocupações da falta de privacidade que nos assolam nestes dias e como essa mesma falta de privacidade pode ainda piorar num regime totalitário que pretende o controlo absoluto da população. Se na obra de Orwell temos o Big Brother aqui temos o Patriarca (não irei revelar o que é para não estragar a história). Em mil novecentos e oitenta e quatro temos o controlo da historia  aqui  é a vigilância e até onde ela pode ir e o que nos resta como espaço pessoal. É um tema que me agrada e que está cada vez mais na ordem do dia, mas que gostava de ter visto explorado de modo mais profundo (os infodumps não ajudaram, mas já falarei deles). O conto ficou superficial, abaixo do seu potencial. 

Como já disse os infodumps não ajudaram. Bem sei que é necessário dar contexto e que um conto não tem muito "espaço" para tal, mas considero que foi excessiva a falta de equilíbrio entre informar o leitor e os momentos de acção. Na medida do possível gostava de ter visto o autor seguir a regra que diz: Mostra, não digas (Show, don't tell).

Existem algumas falhas na revisão, felizmente poucas, mas que fazem com que tenhamos de parar momentaneamente a leituras para perceber se fomos nós que lemos mal ou se foi mesmo uma falha e isso afecta o ritmo da leitura.

Um conto com (muito) potencial, mas que fica aquém do esperado. 

domingo, 7 de abril de 2019

Por Mundo Divergentes - Uma Antologia



Depois da excelente antologia Proxy sigo para outra antologia da Divergência: Por Mundo Divergentes. 

É um livro já de Junho de dois mil e quatorze. Em aspectos como a paginação nota-se que ainda é de uma fase inicial da editora, não que isso lhe tire ou acrescente qualquer mérito, mas se pegarmos num livro actual vê-se uma evolução bastante grande e existe algo de bastante agradável nisso.

Quanto ao conteúdo deste livro é uma antologia com cinco contos de distopias passadas em Portugal "num futuro por vezes mais próximo, por vezes distante". Eu gosto bastante de distopias, adoro a pergunta "E se?" e é também um dos grandes sub-géneros da Ficção Cientifica.

Quanto aos autores já li quatro deles (não me lembro de ter lido nada do Nuno Almeida) e só tenho boas recordações deles por isso espero boas coisas desta antologia.

A partir de amanhã podem contar com a minha opinião a cada conto todas as segundas-feiras.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

A Batalha da Escuridão - Apresentação



É já hoje, pelas 19h, na 2ª Edição do Contacto – Festival Literário de Ficção Científica e Fantasia que é apresentado o livro "A Batalha da Escuridão" do Bruno Martins Soares. Esta é (finalmente) a versão em português de The Dark Sea War Chronicles - Book 1 - Fighting the Silent (é seguir a hiperligação para lerem a minha opinião).



São excelentes noticias para quem gosta de ler no nosso bom português boas obras de FC de autores portugueses. Podem consultar a página da Imaginauta para mais informações. Domingo haverá outra apresentação na Fnac de Alfragide. Espero que em breve consigam vir mais para norte porque também existem (muitos) leitores por estas latitudes.