segunda-feira, 18 de março de 2019

Opinião - Y+T de Marta Silva



Este conto marca a estreia literária da Marta Silva e posso dizer sem reservas que é uma estreia (muito) auspiciosa.

Esta é uma distopia sobre um (pequeno?) mundo controlado por uma esfera(?). É igualmente a história de Y e T, amigas e amantes (?). Uma (Y) vive inconformada com a sua vida e vive para saber, descobrir o que existe para lá das paredes deste mundo, a outra (T) vive acomodada com o seu mundo e a regras deste. Existe desde o inicio uma espécie de embate ideológico e de perspectiva entre os dois ponto de vista, a curiosidade e rebeldia de Y e o desejo de integração e continuação de T.

Toda a história é contada da perspectiva de T e logo ao inicio começa-se a desenhar um fim inevitável que adivinhamos (muito) grave.

Foi um conto que me deu bastante prazer ler, principalmente pela qualidade literária e maneira de escrever da Marta Silva. A sua escrita tem algumas particularidades, embora não sejam originais, como não usar letra maiúscula, algo "roubado" ao escritor Valter Hugo Mãe, e se ao inicio se estranha logo se ultrapassa e passa-se a ler como se isso fosse algo normal. Gostei do uso que ela das às analepse e prolepse, que mais do que servir para nos aguçar a curiosidade do que foi e principalmente do que está para vir acaba por servir, e muito bem, para levar este conto, de modo quase subtil, para o subgénero do cyberpunk, embora só no final percebamos isso.

Mais um excelente conto nesta antologia.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Opinião - Pecado da Carne de Carlos Silva




"Pecados da Carne" é o terceiro conto e é da lavra de um autor já conhecido por aqui: Carlos Silva.

Se os anteriores contos desta Antologia tinham no centro das suas tramas elementos claramente Cyberpunk, este não. Não quer isso dizer que seja despromovido desses elementos. Eles estão lá, mas são mais acessórios, mais como elementos decorativos que mesmo retirados não afectariam (muito) a história contada. Este aspecto não influencia a qualidade da história, mas coloca-la numa antologia cyberpunk já me parece algo questionável.

O conto em si é uma distopia que versa sobre um mundo onde uma doença devastou o mundo. Os governos caíram incapazes de fazer face à pandemia. No seu lugar emergiram grandes corporações com apólices de saúde que apenas os mais ricos podiam pagar, obviamente. Essas grandes corporações construiriam cidades assépticas. Como parte do controlo (muito) rigoroso que é feito a tudo, mas mesmo tudo, isso inclui analises aos esgotos. Ora isso irá revelar que algo não está bem nesta espécie de cidade estado. E o resto vão ter de ler porque não quero estragar a história.

O conto tem uma estrutura clássica com principio meio e fim. O Carlos não utiliza analepses ou outros "truques". O final é interessante, mas para quem anda por cá há já tempo suficiente não será propriamente uma surpresa.

Tirando a falta de mais elementos cyberpunk entrelaçados na narrativa principal é um conto limpo e directo que se lê muito bem embora sem surpreender.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião - Modulação Ascendente de Júlia Durand



O segundo conto da antologia Cyberpunk Proxy é "Modulação Ascendente" da Júlia Durand.

A realidade de Irissa (Íris) é bastante familiar: ou se é (muito) produtivo ou é-se despedido com a agravante de a empresa denegrir o nome de quem despede tanto que outra nunca lhe dará emprego com todas as consequências que isso acarreta. Irissa, assim como todos os seus colegas é obrigada a ter ambição, de fazer por subir pela escada empresarial quer queira quer não. As suas motivações não se ficam pela mera comodidade em não querer abdicar da vida, mais ou menos desafogada, que leva. Isso também faz parte, claro, mas muito mais importante são as consequências que isso teria para a sua cara metade.

O contraste com o primeiro conto (Deuses como Nós de Vitor Frazão) é como da noite para o dia.  Se no primeiro temos a típica acção com corridas desenfreadas, armas a serem disparadas e munições a voarem por todos os lados, neste vamos encontrar um ambiente mais "calmo" (atenção às aspas). Não é uma história menos tensa e densa por isso, afinal temos vidas em risco apenas de uma modo diferente.

O final deixa algo no ar, como se houvesse algo que ficou por explicar ou um mistério que precisaria de outra tantas páginas para ser revelado. Ou então foi só a minha imaginação a trabalhar e a pregar-me uma partida. 

Não quero revelar muito, para não estragar a história a futuros leitores, mas ficou bem patente a habilidade da Júlia Durand e o porquê do Anton Stark ter seleccionado este conto para esta antologia.

domingo, 3 de março de 2019

Opinião (BD) - O Cão que guarda as Estrelas



Hoshi Mamoru Inu - Em tradução literal, "O Cão que guarda as Estrelas". É uma expressão Japonesa usada para descrever alguém que quer algo impossível. A origem vem da imagem do cão que fica a olhar o céu como se desejasse as Estrelas.
Na Introdução de "O Cão que guarda as Estrelas" de Takashi Murakami, edição JBC Portugal

Neste "O Cão que guarda as Estrelas" de Takashi Murakami não existe apenas uma história, mas várias que se vão intercalando e sucedendo. Começamos por ver como lentamente o tempo tudo muda, como o tempo vai erodindo tudo o que une uma família até não restar nada. A culpa é simultaneamente de todos e de ninguém. No centro disto tudo temos o cão Happy que entra na vida daquela família quando ainda está tudo bem e que a vai acompanhar até ao seu fim. Vamos assistir ao desmoronar da vida do Papá (é assim que lhe chama o Happy). Um homem que depois de um divórcio particularmente difícil fica quase sem nada. Sobra-lhe algum dinheiro, o carro e claro o Happy. Decide rumar à sua terra natal onde espera recomeçar, mas nunca lá chega. Isto é mostrado logo ao inicio, como que um aviso. Na viagem vão passar por muitos episódios, alguns tristes, outros felizes, mas o tom trágico nunca deixa de acompanhar a narrativa. E quando pensamos que a história acabou surge mais uma entrelaçada, naquela que acabamos de ler. O tom mantém-se trágico.  

Quanto à arte, achei que para uma história com um tom tão sério e trágico o desenho podia (deveria?) ter acompanhado, em vez de termos um traço algo caricatural, pelo menos aos meus olhos orientais.

É uma história que convida às lágrimas no canto dos olhos e quem durante a sua leitura, não ficar com os olhos pelo menos húmidos não é humano.

Este é um livro de sentimentos, é certo que, como já referi, o tom é trágico, mas também tem os seus momentos de alegria. É uma leitura mais pesada e os leitores mais maduros conseguirão compreender melhor todo o que se passa e assim tirar mais prazer da leitura. Não quero com isto dizer que leitores mais jovens não consigam também apreciar a história, acredito que a leitura irá enriquecer esses mesmo leitores mostrando-lhes e assim preparando-os para a possibilidade desses acontecimentos  

Título - O Cão que guarda as Estrelas
Autor - Takashi Murakami
Editora - JBC Portugal
Tradutor - não indicado

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Opinião - Deuses como Nós de Vitor Frazão



O primeiro conto da Antologia Proxy pertence ao Vitor Frazão com o titulo "Deuses como Nós".

O tom geral trás à memória alguns aspectos de "Neuromante" do William Gibson ou "Snow Crash" (Samurai: Nome de Código em solo luso) do Neal Stephenson como que a querer ancorar não só o seu conto, mas também o leitor à imagem que temos do que é o Ciberpunk. 

Somos brindados com uma cidade, Nova Oli, dividida entre os que tudo tem e os que de nada dispõem a não ser a sua vontade em viver, mas também entre a luz e a penumbra. É neste ambiente que vamos encontrar a antiquária (mas não só) Cleo Maltez que acaba por ser ver convencida a procurar Délio Ginjeira antigo sócio, e agora uma espécie de terrorista,  de Armando Zarco o todo poderoso dono de Ambrósia, Lda a empresa detentora do Elísio

Não quero revelar muito da história para a não estragar a quem ainda não a leu.

Num conto com cerca de quinze páginas alguma coisa terá de ser deixada, se não para trás, pelo menos para segundo plano e neste caso foi uma caracterização mais detalhada da cidade de Nova Oli e os seus contrastes como nos romances atrás mencionados. O Vitor Frazão nunca esquece isso e vai "metendo" onde pode esses elementos, mas acabam por saber a pouco. Compreende-se que o pequeno número de páginas a isso o tenha obrigado. 

O meu maior "problema" foram no entanto as analepses e prolepses. Apesar de ser um adepto da utilização deste tipo de "truque" se não forem bem urdidas na trama acabam por atrapalhar e frustrar mais do que fomentar a curiosidade e incentivar a leitura. Se as analepses das discussões entre Délio Ginjeira e Armando Zarco trouxeram luz sobre as motivações de cada personagem as de Cleo Maltez pareceram-me, não pela informação, mas pela maneira aleatória como foram colocadas, confusas.

Um bom começo desta Antologia Ciberpunk e um bom trabalho do seu autor que no seu todo se sai muito bem.  

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Proxy - Antologia Ciberpunk



Uma das razões para me ter juntado à iniciativa Leiturtugas (desde já o meu obrigado ao Jorge Candeias) é a de me obrigar a ler mais. Poderá parecer estranho, mas a verdade é que o mundo de hoje tem muitas distracções e o tempo não estica e muito menos anda para trás. E verdade seja dita tenho lido muito poucos livros no último par de anos.

E não só me obrigar-me a ler mais, mas ler mais em português e acima de tudo de autores portugueses. E se existe algo de que tenho orgulhado é de ter ajudado a divulgar bons autores portugueses que escrevem (principalmente) no nosso bom português. E espero continuar a descobri-los e a divulga-los.

Vai-me também obrigar a escrever sobre o que leio, algo que muitas vezes fica pelo caminho...

A verdade é que tenho as estantes (físicas e virtuais) cheias de muitos e bons livros de autores portugueses que se encaixam nas "exigências" da iniciativa Leiturtugas e assim, como se costuma dizer, une-se o útil ao agradável.

Assim chego a esta antologia da Editorial Divergência: Proxy que é a primeira experiência antológica de cyberpunk em Português. Lançada nos idos de Setembro de 2016, já assombrava as minhas estantes à demasiado tempo e que por razões que nunca conseguimos explicar completamente, não seria certamente por falta de vontade, foi ficando na estante a ganhar pó (como infelizmente outros)

Com edição do Anton Stark, um prefacio do sempre certeiro e caustico João Barreiros (e que nunca desilude) este será o meu objecto de atenção durante as próximas seis semanas. Com uma opinião por semana a sair à segunda-feira e começa já amanhã com "Deuses como nós" do Vitor Frazão. 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Opinião (BD) - Starlight: O Regresso de Duke McQueen



O Pedro Cleto do blog As Leituras do Pedro, como o próprio afirma, ficou surpreso por José de Freitas, editor da G Floy, ter incluido nas suas escolhas de 2018 este "Starlight - O Regresso de Duke McQueen". Tal como o Pedro Cleto também eu fiquei curioso e novamente como o Pedro Cleto também eu fui "resgatar" a minha cópia (literalmente) do meio da pilha de BD's a ler. 


Esta é uma BD evocativa de figuras como Flash Gordon ou Buck Rogers, mas Starlight é mais do que uma mera homenagem a essas histórias e isso pode logo ver-se nas primeiras paginas. Onde essas histórias terminam, esta começa.


Começamos no que costuma ser o fim deste tipo de histórias: o herói a ser homenageado e aclamado depois de ter salvo o povo do planeta Tantalus do seu tirano governante. Somo então catapultados para o Presente da personagem, um Presente triste e cinzento.



Depois do seu regresso à Terra, cai em descrédito porque ninguém acredita nas aventuras que diz ter vivido e acaba por cair no esquecimento, embora nunca totalmente esquecido.

Para mim o melhor desta BD é o seu primeiro capitulo onde os autores exploram a vida do outrora piloto de teste e herói Galáctico caído em desgraça. De como tudo se passou, de como a sua esposa foi um pilar, sempre ao seu lado quando ninguém acreditou que ele havia viajado até outro planeta, de como a morte da sua esposa deixa Duke McQueen, um homem já a entrar na terceira idade , naufragado entre as memorias de outros tempos mais gloriosos e um presente onde os seus dois filhos, já com as suas próprias famílias, o colocam de lado por falta de tempo e vontade. Tudo isto num só capitulo, muitas vezes de modo indirecto e onde temos paginas inteiras sem um único balão de diálogo. Para mim simplesmente brilhante e demostrativo das capacidade dos autores.




É neste momento de indefinição da vida de Duke McQueen que aterra uma nave nas traseiras da sua casa. Nela um rapaz do mundo que Duke salvou à tanto tempo, vem para pedir a sua ajuda pois Tantalus encontra-se novamente preso nas garras de mais um déspota e apenas o grande herói Duke McQueen poderá salvar novamente Tantalus. 


E acho que já sabemos o que se vai passar a seguir. Apesar da indecisão inicial Duke McQueen segue o seu jovem admirador de regresso a Tantalus onde irá viver muitas aventuras até ao inevitável fim, onde tudo, spoiler alert, acaba bem.

Confesso que, pelo menos durante o primeiro e segundo capitulo ainda pensei, tal como o resto das personagens, que as aventuras do jovem Duke McQueen tinham sido uma ilusão. E que com a morte da sua esposa e o alheamento dos seus filhos essas histórias tenham regressado ainda mais em força à mente frágil de um homem à beira do abismo. Pergunto-me se isto passou pela mente de outros leitores ou mesmo dos seus autores. 

Em conclusão "Starlight: O Regresso de Duke McQueen" é uma BD interessante que pega num velho tema e lhe dá uma nova interpretação. Gostei da arte de Goran Parlov que me pareceu adequada ao ambiente que retrata. 


Título - Starlight: O Regresso de Duke McQueen
Argumento - Mark Millar
Arte - Goran Parlov
Editora - G Floy
Tradutor - João Miguel Lameiras