segunda-feira, 26 de junho de 2017

Tirar, começar e não acabar ou a história de leituras inacabadas

A quem é que nunca aconteceu deixar um livro a meio? Já terá acontecido a todos nós pelo menos uma vez e eu não sou excepção. Alguns leitores deixam as suas leituras a meio porque o livro em questão não desperta a sua atenção, a sua curiosidade o suficiente ou porque esperavam algo mais e preferem não perder o seu tempo com algo que, à partida, não os vai satisfazer e seguem para outro livro que esperam ser (muito) melhor. Parte de mim admira e reconhece alguma coragem nesse acto embora confesse que não me lembro de ter deixado algum livro a meio por esse motivo. Já tenho lido livros que à partida sei que não são grande coisa, mas consigo lê-los facilmente, por norma o único desafio é ultrapassar  o aborrecimento de um livro previsível e insípido. Já agora para todos os que se estão a perguntar o porquê de eu ler livros que à partida sei serem maus? São livros que chegaram aos tops (ninguém sabe como), como a saga Twilight da Stephenie Meyer, e para poder falar com propriedade tenho de os ler. Eu sei, eu sei, mas alguém tem de o fazer.

Mas existem outras razões para se deixar um livro a meio. As dinâmicas das nossas vidas pessoais, sociais e profissionais também podem influenciar a leitura (ou não) de um livro.

Eis que chegamos ao que me levou a escrever este texto e que é a principal razão que me leva a deixar (embora temporariamente) a leitura de um livro: não estar preparado para o mesmo. É uma razão que não se vê muitas vezes a ser assumida e discutida, mas acredito que tal como eu também outros leitores o fazem por esta razão. Ninguém gosta de admitir que não percebeu o que estava a ler. Não serão muitos os leitores que gostam de reconhecer, quer a si quer aos seus pares, a sua ignorância. Na Ficção Científica, por exemplo e especialmente na chamada Hard Scifi, é algo que acontece amiúde, como os seus estranhos conceitos e tecnologias que baralham e afastam a grande maioria dos leitores. Para leitores iniciantes poderá ser um mau local para começar precisamente por isto, mas afasto-me do tópico. 

Neste aspecto houve uma colecção que me marcou: Viajantes do Tempo da editora Presença. Hoje uma colecção morta e (quase) enterrada, foi a minha porta de entrada para a Ficção Científica e como tal também a minha primeira fonte de frustrações e livros deixados para trás (embora hoje possa dizer com orgulho que já os li a todos). Alguns li-os até ao fim, como os livros do Philip K. Dick ou da Ursula K. Le Guin, mas acredito que nunca os compreendi totalmente, e alguns tive mesmo de os deixar. Não são poucas as vezes em que olho para eles e desejo voltar a lê-los novamente, para, agora já mais maduro quer na idade quer na experiência literária adquirida, os poder verdadeiramente apreciar, mas divago novamente.



Dos livros que tive de deixar a meio, embora logo ao inicio seja mais correcto, pelas razão acima descritas encontram-se o livro de Neal Stephenson “Samurai: Nome de Código” (Snowcrash) um dos grandes e icónicos livros do Cyberpunk (e o primeiro da colecção), do Bruce Sterling “Schismatrix – O Mundo Pós-Humano” (Schismatrix Plus) e a trilogia de John C. Wright constituída por “A Idade de Ouro” (The Golden Age), “A Fénix Exultante” (The Phoenix Exultant) e “A Grande Transcendência” (The Golden Transcendence). Todos livros que mal os comecei a ler coloquei-os de lado. O livro do Bruce Sterling ainda lhe peguei duas ou três vezes naquela altura, mas com o mesmo resultado. Não foram apenas estes claro, houve mais alguns, mas estes ficaram-me na memoria.




Foram precisos mais de dez anos para lhes pegar novamente e os ler, mais de dez anos a educar o meu “palato literário” e que irá continuar a ser educado até ao dia em que morrer. Quando os li, e apesar de ainda ter muito a aprender, consegui não só lê-los como também apreciar as belas obras que são e que merecem uma releitura e quem sabe se um dia não o farei.




E agora revelo que existe mais um livro que vai para este lista: Galxmente do Luís Filipe Silva. Era suposto ter sido a minha primeira leitura do ano e em boa verdade foi com ele que logo no dia Um comecei, lendo as primeiras páginas, mas foi sol de pouca dura pois apesar de toda a minha vontade não consegui prosseguir com a leitura. O livro não foi para a estante, ficou na mesa de centro da sala, onde estão as minha futuras leituras, como uma lembrança das minha “obrigações”. Há cerca de dois meses voltei a tentar. É certo que consegui avançar mais do que da primeira vez, mas o resultado foi o mesmo. Neste caso não foi a falta de conhecimentos que me deixou “pendurado”, mas antes a “dinâmica”, leia-se uma falta de disponibilidade mental para o conseguir ler. Apesar de toda a minha curiosidade em ler este clássico da Ficção Científica Portuguesa, e ao fim de duas tentativas goradas acabei por “devolver” o livro à estante na esperança de um dia, mais cedo do que tarde, possa voltar a pegar nele e lê-lo de fio a pavio com a atenção e dedicação que merece. Não culpo o livro, nem este nem os outros que não consegui ler à primeira, ou mesmo à segunda tentativa, aliás não culpo ninguém nem nada, são momentos e fases da vida e como tal não vale a pena andar a martirizar-me ou a tentar arranjar desculpas esfarrapadas culpando o autor ou o livro ou o que seja. O segredo é não levar a situação demasiado a sério. Já aconteceu antes e certamente voltará a acontecer e de todas as vezes e sabendo de antemão que os livros valiam a pena voltei a eles mais sapiente e mais calmo e pude aprecia-los. Com este tenho a certeza que também assim será. 

2 comentários:

  1. Curiosamente aconteceu-me o mesmo com "Schismatrix – O Mundo Pós-Humano" - apenas o terminei na segunda leitura. Quanto à "A Idade de Ouro" já peguei nele duas vezes. Da segunda avancei mais um pouco, mas parei a páginas tantas. Será lido a seu tempo.
    "Galxmente" ainda está na lista de compras. "Samurai: Nome de Código" foi amor à primeira página.

    Contudo, existem livro que arrumei mesmo, mesmo porque sei que vou morrer sempre logo ali na praia.

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    1. Alguns livros, como o "Schismatrix – O Mundo Pós-Humano", são bastante complexos e necessitam de um leitor preparado. Outros livros precisam de um leitor com "cabeça" para o ler. Neste categoria lembro-me de um em especifico: "Máscaras de Matar" de León Arsenal (colecção Via Láctea n.º 27 da Editorial Presença), uma magnifica obra que à primeira tentativa também se ficou pelas primeiras páginas e que na segunda tentativa, uns bons meses depois, me deixou de boca aberta e uma pergunta na mente: porque raio não consegui ler isto da primeira vez?

      Espero que o caro Paulo volte a dar um oportunidade à trilogia do John C. Wright a começar por "A Idade de Ouro". É uma história deveras complexa e cheia de sub-texto e referencias à Mitologia Grega e não só, mas que foi uma leitura extremamente recompensadora.

      Boas leituras

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