
"Lisboa é capital e o resto
é paisagem" é uma frase que se ouve amiúde e que se traduz no
facto de (praticamente) tudo acontecer na nossa capital e pouco (ou
nada) no resto do país. Os eventos culturais são lá e o que quer
que se atreva a acontecer noutras partes do país se tiver sucesso
rapidamente ruma a Lisboa (como é exemplo a Comicon). Mesmo no mundo
da literatura Lisboa parece ser o palco de muito do que se lê e a
FC&F não é excepção com muitas antologias e romances a ter a
capital como cenário de fundo (“A Sombra sobre Lisboa”, “Lisboa
no ano 2000”, “Dormir com Lisboa”, “Lisboa Oculta”, “Lisboa
Triunfante”, etc.). O facto torna-se mais triste quando sabemos que
apesar de Portugal ser um país geograficamente pequeno as diferenças
entre regiões são enormes, as lendas de Trás-os-Montes são, por
exemplo, muito diferentes das do Alentejo e mesmo o falar e as
comidas são tão diferentes que conseguem agradar a “gregos e a
troianos”. É por isso triste ver que todo este potencial não é
aproveitado para nos inspirar a escrever grandes histórias e mostrar
um Portugal muito mais real do que apenas o que Lisboa tem para
mostrar. É assim que chegamos a esta antologia da Divergência com o
sugestivo titulo “O Resto é Paisagem”.
Foi
um livro que me deu muito prazer ler, todos os contos são
interessantes e bem escritos e nenhum se afasta do tema. Confesso que
o conto que mais prazer me deu ler foi o do Rui Ramos: “Chegou ao
seu Destino” com a mistura entre a sua escrita e a inspiração nas
lendas de um Portugal profundo que me avivou memorias de uma infância
e juventude (muito) parcialmente passada na aldeia onde o meu pai
nasceu, perdida na serra do Caramulo onde ouvi muitas das história
que são descritas não só no conto do Rui, mas também noutros
desta antologia. Aliás esta antologia funciona como lembrança para
pessoas como eu e como porta de entrada para quem sempre viveu na
cidade e nunca teve contacto com estas histórias.
Espero
que a Divergência volte a este tema para uma nova ronda de novos
contos de um Portugal que ainda existe lá longe de Lisboa.