terça-feira, 6 de maio de 2014

Os Clássicos - Uma (possivel) Iniciação à Ficção Científica

Ah os Clássicos! Os Clássicos são o proverbial pau de dois bicos. Todas sabemos quais são, todos (achamos que) sabemos sobre o que falam e todos já ouvimos chavões sobre eles. Quem nunca ouvi falar do Grande Irmão? Ou do bom Selvagem? Da Baleia branca e do Capitão Ahab? E utilizar o titulo "Admirável Mundo Novo" já nem é cliché de tantas vezes que já foi utilizado nos mais variados contextos. Pois é muitos já ouviram falar, mas muito poucos já os leram e este é o primeiro problema dos clássicos porque uma boa parte do que já lemos começou nos clássicos. Quando este ou aquele livro faz alusão ao facto de este ser "o novo Senhor dos Anéis" ou "o sucessor do Orwell" não quer dizer que tenha alguma coisa em comum com o livro ou autor em questão, por norma costuma ser uma mentira pura e dura apenas para vender mais um livro ao leitor incauto.
O segundo problema acontece quando se tenta lê-los. Como as expectativas costumam ser elevadas muitos leitores tende a acha-los "fraquinhos", esquecendo-se que (na maior parte dos casos) foram eles que criam o que são agora clichés. Portando ao ler um clássico ter sempre em mente que foram eles o inicio de tudo, que o autor A ou B e que vocês até gostaram muito, meramente copiou o que os mestre fizeram antes, ou para ser mais gentil foram inspirados pelos clássicos.
É preciso ter em mente que se estes livros são clássicos foi porque resistiram ao teste do Tempo. Não esquecer também que estes livros já levam em alguns casos quase dois séculos de existência. Vamos a eles:




Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Selley - É considerado por muitos como a primeira obra de Ficção Científica, facto que não irei contestar ou atestar. Como outros livros da época é narrado na primeira pessoa, aqui pela pessoa do Capitão Walton nas cartas para a sua irmã com base nos relatos do cientista Victor Frankenstein. Nada de naves espaciais ou afins "apenas" um homem e as consequências do seu trabalho que o irão perseguir (metafórica e literalmente) e o qual irá perseguir. O livro foi um surpresa positiva para mim, nada do que pensava saber sobre a história se confirmou e assim cada página, cada paragrafo foi uma descoberta.
Ao contrario da crença popular a criatura não tem nome, e no texto apenas se fala num monstro, criatura e outros "mimos" similares. Hoje ao ler esta obra podemos dizer que ela se debruça sobre os perigos e consequências da ciência e da tecnologia embora na altura tenho a certeza que isso fosse algo de que não se falasse.
É também o perfeito exemplo de como o cinema consegue deturpar uma historia, pois as versões mais famosas nada ou, sendo simpático, muito pouco terão à haver com o livro. Escrito entre 1816 e 1817 foi publicado em 1818, em 1831 é editada uma terceira edição revista que é a versão mais utilizada e lida.




A Máquina do Tempo de H. G. Wells - É o único livro desta lista que ainda não li (apesar de já ter tentado), mas era impossível fazer uma lista de clássicos de FC sem incluir (pelo menos) um livro do Herbert George Wells. Wells é provavelmente o primeiro grande autor de Ficção Científica (a para de Jules Verne) e "A Máquina do Tempo" foi o seu primeiro livro publicado em 1895. A historia, como o próprio título indica é sobre uma maquina do tempo e a viagem que o Viajante do Tempo (o personagem principal é apenas conhecido por este nome) viaja ao ano 802701. Lá encontra uma pacifica raça, os Eloi, mas eles não estão só neste futuro em que também vivem os Morlocks, uma raça nada pacifica.
Sempre tive uma atracção por historias de viagens no tempo, adoro pensar nas possibilidades, os paradoxos e é por isso que em breve conto dar uma nova oportunidade a este livro.




Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley - Publicado em 1932 este é um daqueles livros que nas suas ideias está muito à frente do seu tempo, alias alguns livros publicados recentemente de FC não chegam aos calcanhares deste na "ousadia" das suas ideias. O livro começa por nos mostrar uma sociedade em que não existe conflitos e a razão é simples: engenharia genética, bem uma espécie de engenharia genética. Não se preocupem, não vão encontrar um livro cheio de termos obscuros. A Humanidade (quase) toda é feita em laboratório, clones que se diferenciam pelas classe a que pertencem: os Ípsilon que são a mais baixa casta, os Delta, os Gama, os Beta e os Alfa, os mais inteligentes. Como não existem casais e família o sexo é praticado por recreação com o lema "Cada um pertence a todos". Se se sentem triste ou com duvidas tomam uma droga sem efeito colaterais chamada Soma. É neste mundo que vamos encontrar Bernard, um Alfa, que sentido-se insatisfeito com a vida, ele sofreu um acidente que o torna um pouco diferente dos outros da sua casta, decide fazer uma viagem com Lenina, uma Beta, a uma reserva histórica, onde ainda existem humanos "à moda antiga" e lá descobrem Linda, uma Beta que lá ficou aprisionada e com um filho nas mãos, John e bem parece que vão ter de ler para descobrir mais. É realmente uma história interessante e da qual gostei bastante e que levanta muitas questões interessantes e que são cada vez mais actuais.





Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de George Orwell - É provavelmente a mais conhecida distopia. Publicada em 1949 nela vemos retratas muitas das ideias que hoje são o nosso dia-a-dia, mas não se trata de uma profecia, mas sobre isso falarei noutro texto. O personagem principal é Winston Smith, trabalha no Ministério da Verdade, é também como muitos de nós, um indiferente. Vamos descobrir como um regime totalitário consegue manter sob controlo toda a população. As coisas mudam quando se apaixona por uma colega de trabalho, Júlia. Sim um história de amor no meio de um clássico da FC! É um livro que mudou o Mundo pelas suas ideias e claro pelos chavões que introduziu: "Big Brother is Wachting you!" é apenas uma exemplo, ou pelos novos e revolucionários conceitos que revelou como a Novilingua  em que se insere o Duplipensar. Tão revolucionário foi este livro que o nome de (George) Orwell deu origem a um adjectivo: Orwelliano. Um clássico que deve ser lido, não por ser FC, mas pelas suas ideias revolucionarias.





Duna de Frank Herbert - É considerado por muitos como o melhor romance de Ficção Científica, e um dos maiores nomes da FC, Arthur C. Clarke, disse que Duna era "O Senhor dos Anéis da Ficção Científica". Esta é a importância de Duna na FC, mas vai muito além disso, é também considerado um hino à ecologia. A historia de Duna podia (quase) ter-se passado na Idade Média. Duna é um planeta inóspito, um deserto, também conhecido como Arrakis, mas com algo único: apenas lá existe a especiaria Melange sem a qual o Império se desmontará.  O duque de Atreides é enviado para governar Duna e leva a sua família. Não querendo estragar a história digo apenas que o seu filho, Paul, é a chave de uma velha profecia dos Fremen, o povo de Duna. É uma historia de vingança onde vamos acompanhar Paul, com suas inseguranças e medos a tornar-se um peça central não só para o povo Fremen, mas também para o Império. É um livro com um pouco de tudo: filosofia, religião, é um mundo num livro. Sem duvida nenhuma obrigatório. 





Fahrenheit 451 de Ray Bradbury - Imaginem um universo onde ler livros não só é proibido mas quando encontrados são queimados, Como se isto não fosse já de si algo assustador para leitores como nós imaginem que quem queima os livros são os bombeiros e isto é só o começo. O personagem principal é Guy Montag um "bombeiro" que um dia sem querer lê um frase num livro, juntamente com outro acontecimento isso leva-o a começar a roubar os livros e a lê-los. Ao longo da história vamos descobrindo o porquê desde acto hediondo. A historia leva-nos por caminhos interessantes e o final é no mínimo surpreendente. Num nota de curiosidade o titulo é a temperatura à qual o papel entra em combustão. É um livro magnifico e para quem não conhece a fascinante prosa quase lírica do Bradbury pode ser uma excelente porta de entrada.




A Mão Esquerda das Trevas de Ursula K. Le Guin - Como não podia deixar de ser uma obra da grande Ursula K. Le Guin tem de fazer parte de uma lista de clássicos da FC e este "A Mão Esquerda da Trevas", publicado em 1969, é um excelente exemplo da sua imaginação e capacidade narrativa. Neste livro acompanhamos Genly Ali o envido de uma Federação Interestelar, o Ecuménico, a um planeta que é bem diferente de tudo o que já conhecemos a começar pelos seus habitantes. Estes não tem um sexo definido excepto quando entram num espécie de cio, onde podem assumir tanto o sexo feminino como o masculino, podem ser pais e mães. A historia é contada quer pelo ponto de vista de Genly, que tenta fazer com que o planeta faça parte da Ecuménia, como de Estraven, um nativo. Somos também em alguns capítulos presenteados com os mitos e lendas do planeta. Este livro é um obra de arte quer da narrativa quer da imaginação





O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick - Falar de FC é também falar de Philip K. Dick. A sua criatividade é algo de assombroso, e este "O Homem no Castelo Alto", publicado em 1962, é um bom exemplo. A história passa-se num universo paralelo onde os Aliados perderam a Segunda Grande Guerra e como consequência o mundo foi divido pela Alemanha e pelo Japão ao meio. Os Estados Unidos, onde se passas a narrativa, são-no de modo bastante literal, a costa este para os alemães e a costa oeste para os Japoneses. Na zona de neutra vive o Homem do Castelo Alto, autor de uma obra que descreve um mundo onde os Aliados ganharam a guerra e o mundo é bastante diferente. É um livro que além de um excelente Mundo criado tem nas suas personagens o seu ponto forte pois são elas que nos retratam este universo, arrisco dizer que as personagem criadas pelo autor são tanto ou mais fascinantes que o mundo que criou.




À Boleia pela Galáxia de Douglas Adams - Para além dos assuntos sérios que a maior parte das vezes vemos retratadas nos livros de FC (muito) ocasionalmente lá encontramos uma obra de FC que faz uso do humor e ouso dizer que nenhum será tão bom como este "À Boleia pela Galáxia", publicado em 1979. Mostra que a FC também sabe rir. A historia começa quando o planeta Terra é destruido para dar lugar a uma nova via rápida. Arthur Dent é salvo pelo seu amigo (e alienígena) Ford Prefect. Juntos irão viver grandes aventuras com algumas personagens simplesmente alucinantes onde se vais descobrir a resposta para perguntas como o sentido da vida e sempre com a preciosa ajuda do livro " O Guia da Galáxia para quem anda à Boleia" e os seus conselhos salva vidas como andar sempre como uma toalha. Um livro de FC, mas também para quem gosta de rir a bom rir e quem não gosta. A título de curiosidade este livro começou como uma novela radiofónica. 




A Guerra Eterna de Joe Haldeman - É a minha mais recente leitura e ainda estou o estou a "digerir", mas posso desde já afiançar que é um magnifico livro. É uma historia de Guerra, mas também de mudança, de como tudo muda e as vezes em pouco tempo, de como partimos heróis e chegamos vilões, de amor e confusões. A narrativa segue William Mandella, um soldado que tem de combater um raça de alienígena que nunca ninguém viu, os Tauranos, mas para o fazer tem de viajar através das Collapsars, uma espécie de portais, mas graças a relatividade o que para Mandella são 10 meses na Terra são 20 anos. Foi interessante ver como o autor soube jogar com tantos aspectos, claro que a sua experiência na guerra do Vietname foi crucial e este livro, como não podia deixar de ser reflecte essa experiência, mas vai muito mais além. O final do livro reflecte bem o sentido das Guerras. Foi publicado originalmente em 1974.


Espero que este lista de clássicos da FC vos tenha deixado curiosos. Como já disse no texto Ficção Científica - Uma (possível) Iniciação haverá polémica por ter incluído "este" autor/livro e não o cá colocado "aquele", mas o meu objectivo não é uma lista exaustiva, mas apenas despertar a curiosidade dos leitores que ainda não leram (muita) FC com livros que sejam de "fácil" leitura por quem nunca leu FC.

De hoje a oito cá estarei com "Os Ilustres Desconhecidos".