terça-feira, 27 de setembro de 2016

Opinião - Reunião de Heróis de Ricardo Formigo



Quando o meu bom amigo Corvo colocou no seu blog, Leituras do Ficha o Corvo Negro, a sua opinião do livro Reunião de Heróis do Ricardo Formigo eu, mesmo sem o ter lido, escrevi algumas considerações baseadas no que o Fiacha tinha escrito. Tendo lido o meu comentário o Ricardo Formigo contactou-me tendo encetado uma conversa de modo aberto e sincero acabando por me oferecer um exemplar do seu livro para que eu pudesse dar a minha opinião sobre o mesmo.

Antes de avançar para a minha opinião gostava de deixar algumas informações que me parecem pertinentes para enquadrar o caro leitor deste blog e possivelmente do livro.

O Ricardo Formigo, autor deste livro, começou a escreve-lo quando tinha doze anos e publicou-o quando ainda tinha dezassete (actualmente tem dezoito). Segundo a nota de imprensa as suas influências são J. K. Rowling, J. R. R. Tolkin e George R. R. Martin. Este é um livro que eu consideraria destinado a um público juvenil, para a faixa etária dos leitores com cerca de doze anos. É um livro de Fantasia Medieval, mas ao contrario das obras de J. R. R. Tolkin ou George R. R. Martin o Ricardo (para já) opta por deixar de lado qualquer aparição ou sequer menção a magia ou às habituais criaturas como elfos, anões ou outros que habitam essas histórias. Feitas as "apresentações" vamos à minha opinião.

Inocência é a palavra que me vem à mente quando penso neste livro e vejo esta inocência na escrita e no enredo.

Irei começar pelo que considero os problemas deste livro. As personagens são bidimensionais, falta-lhes profundidade, mas acima de tudo falta-lhes história para sabermos o porquê de este ou aquele personagem ser como é. Por exemplo a Annabelle em duas ou três ocasiões ao longo do livro combate de igual para igual com guerreiros (homens) supostamente muito experientes e no final do livro comanda uma carga de cavalaria, mas onde foi ela buscar essas capacidades? Como consegue ela lutar com espadas e armaduras (pesadas) e dar conselhos militares a outros personagens, como o general Marshal, sem que nada na sua história nos diga que recebeu treino nestes campos? Não coloco em causa que ela possa fazê-lo, mas sem saber (quase) nada da sua historia ou sem saber ou ter visto outras mulheres guerreiras, torna inverosímil tudo o que faz. Outro exemplo é Fallow, que sabemos ser o mau da história, mas porquê? Só porque sim não é resposta, e dizer que ele já era mau quando era pequeno, também não. Isto é mau porque embora eu saiba que é uma historia falsa e que é algo que não aconteceu, se a história for contada de modo realista com os devidos detalhes, eu passo a acreditar e isso é (ou deveria ser) o ponto central de todas as histórias que se resume no seguinte: não aconteceu, mas podia ter acontecido.

São estes detalhes que fazem toda a diferença. Temos um descarregar maciço de informação, principalmente no inicio do livro, quando o autor podia ter aproveitado para mostrar, seguindo a "famosa" regra "Não digas, mostra", a história deste mundo e das personagens principais para conhecermos as sua motivações.

Outro ponto importante é aquilo a que eu chamo os saltos de fé. A maneira como Fallow chega ao poder é normal, já o clima de conspiração que se lhe segue não. Nada lemos que aponte nessa direcção. Ou a maneira como Annabelle e companhia assumem que Trenton e a companhia Vermelha são maus só porque dão os vivas ao novo rei é no mínimo ingénua (eu dava os vivas ao novo rei, afinal rei morto rei posto e ele é o legitimo herdeiro). Dá a sensação que saltamos um ou mais capítulos em que alguma informação crucial foi revelada e que dá razões para suspeitar de Fallow e de Trenton, mas como vamos descobrir essa informação só chega ao conhecimento de Annabelle e companhia (muito) mais tarde.

O facto de este ser um livro juvenil não é razão para justificar estes erros. Eu costumo dizer que um livro infantil e/ou juvenil é tão bom quanto a sua capacidade de agradar a um público adulto, que por norma é (muito) mais exigente.

Por último temos um português que precisava de uma boa revisão, não por existirem erros ortográficos, mas devido à construção das frases algo confusas e em alguns casos com palavras a mais e/ou desnecessárias, embora isto se note muito mais no inicio do livro.

Há mais alguns pontos que mereciam foco, mas teria de fazer revelações que certamente estragaria a leitura dos futuros leitores.

No lado dos pontos positivos nota-se claramente uma evolução ao longo da escrita do livro que me faz ter esperança, e roubando as palavras do meu amigo Fiacha, afirmar que existe potencial no Ricardo. Agora se ele irá mostrar que esse potencial, que esta esperança que depositamos nele é fundamentada, apenas o tempo o dirá, mas espero que sim. Acima de tudo espero que ele tenha a humildade em aceitar e aprender com estas opiniões e criticas. Já são alguns bloggers que publicaram opiniões/criticas a este livro e todos parecem concordar no essencial: tem potencial, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. O Ricardo fez algo que muitos com mais talento não fazem: conseguiu escrever um livro. Só isso demonstra força de vontade.

Se eu fosse o editor deste livro não o teria publicado tal como está até se terem resolvido os aspectos negativos que acima menciono, mas não dei o meu tempo por perdido. Gosto de ver evoluir um autor, e muitas vezes isso inclui ler algumas coisas que, na minha opinião, ainda precisam de polimento. Já o disse ao Ricardo e digo aqui também: espero trabalhar com ele, se assim ele o desejar, como leitor Beta dando a minha opinião honesta e sem "paninhos quentes".

Se o caro leitor depois de ler esta minha opinião não quiser ler o livro não o posso censurar. Lembre-se apenas que tal como as crianças que aprendem a andar caímos, caímos e voltamos a cair, mas acabamos por nos levantar para enfrentarmos o próximo desafio que é a vida. Pela minha parte cá espero o próximo volume desta saga.