terça-feira, 15 de novembro de 2016

Opinião - Terra Fria de Manuel Alves



Terra Fria é uma história de coragem, saudade e sacrifício. É uma história de ódio, perdão e redenção. É uma história de personagens fictícias, mas paradoxalmente de pessoas verdadeiras e histórias reais que ao mesmo tempo se querem esquecer mas que precisam de ser lembradas. Este é (mais) um livro onde o Manuel volta a surpreender com a sua escrita simples, mas cheia de significado e acima de tudo de sentimentos e emoções. O Manuel pertence a esse rarefeito estrato de escritores que são capazes de nos emocionar com cada palavra. Num momento estamos a rir no seguinte a chorar e logo a seguir a gritar com as páginas prenhes de emoção com esta personagem ou aquela situação. Isto é o Manuel Alves e "Terra Fria" (mais) um bom exemplo da sua escrita. Mas como falar de um livro que não se meramente lê, mas acima de tudo se sente? Descrever desapaixonadamente a história não é maneira de o honrar, mas tentar igualar as emoções que ele transmite é missão (quase) impossível. Resta-me tentar sabendo que o mais certo é falhar, mas antes "morrer" a tentar do que nem sequer arriscar. 

"Terra Fria" tem o seu prólogo e o seu epílogo nos nossos dias, mas a sua história decorre nos dias negros da ditadura do Estado Novo, um período da nossa História recente que muitos de nós (infelizmente) desconhecem quase por completo. E é ao mesmo tempo que nos dá uma lição de História que o Manuel Alves tece a sua magia ilustrando o dia-a-dia das pessoas comuns desses dias e o que lhes acontecia se tivessem o azar de se cruzar com a essa negra instituição que foi a PIDE.

O Manuel brinda-nos com com uma galeria de personagem reais e apelativas. Esmeralda, personagem principal, mulher, esposa e mãe. Ela é ao mesmo tempo a vitima e a agressora, num ambiguidade estranha e lógica de mulher forte que não se deixa vergar pelas adversidades do destino. Hilário, um personagem trágica e pela qual eu não consigo deixar de nutrir simpatia, é me impossível não o fazer. A sua cruz é de ter cometido apenas um erro: amar. É esse amor que o leva a ser vitima do destino que esse amor lhe traça. Ao mesmo tempo que acho triste o que lhe acontece, não consigo deixar de dar (também) razão a quem o odeia e o despreza, porque os sentimentos são assim mesmo ficam connosco e a emoção sobrepõe-se (quase) sempre à razão. Silvério o homem que vive duas vezes. A primeira vida dada pela sua mãe e a segunda vida dada pela Esmeralda. 

A Aida a vilã e como qualquer boa vilã, é em muitos aspetos a antítese da heroína, mas ao mesmo tempo partilha com ela igualmente muitas características como serem ambas incapazes de perdoar facilmente ou de esquecer o passado. Quando conheci, pela primeira vez, a Aida pensei que ela fosse uma excentricidade do autor, uma liberdade criativa para dar a Esmeralda uma inimiga à sua altura. Pensava eu, na mais pura das ignorâncias, que uma mulher agente da PIDE fosse algo que nunca tivesse existido, algo apenas possível num universo alternativo mas estava enganado. Ao procurar encontrei uma tão má, senão pior que a Aida, como puderam ler neste artigo da revista Sábado: "A mulher mais violenta que trabalhou na PIDE". 

Diria, para rematar, que este foi mais um excelente livro que o Manuel me deu o prazer de ler, mas acho que isso já ficou patente.

Só um apontamento final para dizer que este livro, apesar de ser em formato digital, está autografado com aquele que é provavelmente o melhor autografo que alguma vez me dedicaram e que (muito) dificilmente me irão dedicar um melhor. E é com orgulho que partilho convosco:
Para o Marco um leitor que me apresentou leitores
Agradeço a generosidade Manuel e espero continuar a promover o teu trabalho a novos e velhos leitores.

Este livro pode e deve ser encontrado no Smashwords no link: Terra Fria de Manuel Alves