O romance de Pedro Guilherme-Moreira, A Manhã do Mundo (Dom Quixote 2011), editado sob a asa protectora desse mito vivo da edição que é Maria do Rosário Pedreira, tem como cenário o atentado de 11 de Setembro de 2011 às Torres Gémeas. A sinopse na contra capa é esta:
No dia 12 de Setembro de 2001, Ayda encontrou-se com Teresa num café de Allentown e, com o jornal aberto sobre a mesa, foi implacável com os que tinham saltado das Torres Gémeas, chamando-lhes cobardes; mas não disse à amiga que, na verdade, o que sentia era outra coisa, uma grande frustração por o marido e o filho a terem abandonado e rumado a Nova Iorque num momento em que ela se recusava a tomar a medicação e lhes tornava a vida um Inferno - e de não ter coragem de fazer o que esses tinham feito. Entre os que saltaram, estavam Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon - todos personagens fascinantes, com histórias de vida simultaneamente banais e extraordinárias -, que o acaso reuniu no 106.º piso da Torre Norte do World Trade Center naquela fatídica manhã. Se Ayda, por hipótese, conhecesse essas histórias e o drama que eles enfrentaram, decerto não os teria insultado tão levianamente. Mas poderá o destino dar-lhe uma oportunidade de rever a História? Este é um romance admirável sobre o medo e a coragem, o desespero e a lucidez, a culpa e a expiação; mas é também um livro sobre Einstein e os universos paralelos, sobre o que foi e o que podia não ter sido. No décimo aniversário do 11 de Setembro, a memória não basta, é preciso combater o esquecimento indo para junto dos heróis que viveram o horror e compreender cada um dos seus actos - se necessário, saltar com eles, conhecer aquela que foi a manhã do Mundo.
Não dei o meu tempo por perdido, pelo contrario, gostei da historia e da escrita do autor, mas houve e há uma questão que me tem provocado alguma celeuma desde que peguei no livro.
Muitas editoras tem adoptado colocar, por exemplo por cima ou por baixo do código de barras, o género em que se insere o livro, e assim é com este, mas ao invés de dizerem que pertencia ao Romance Histórico, Filosofia, Terror, etc, este foi só classificado como Literatura Lusófona. Esta classificação é uma redundância, pois é um livro escrito por um Português, e claro não se refere ao livro, mas sim ao autor e essa informação já nós tínhamos lido na badana, portanto tempo perdido. Compreendo que a editora, a Dom Quixote tive escolhido esta "classificação" pois não é conhecida no género em que este livro se insere: a Ficção Científica, sim este é um livro de Ficção Científico.
O que mais me "escandaliza" é o facto de em todas as entrevistas e criticas que li e vi ninguém ter mencionado frontalmente o facto de este ser um livro de Ficção Cientifica, isto quando pura e simplesmente ignoraram esse facto, o que é a maioria da vezes. Existem alguns apontamentos nesse sentido, mas nunca nada de concreto é dito. A critica da Rita Bonet na revista Os Meus Livros diz que o autor deveria ter explorado "a teoria dos Universos Paralelos" (nesta revista a critica foi "arquivada” em Romance), outros falam em historia alternativa e teoria das cordas. O único que vi falar em Ficção Cientifica foi um tal de Pedro Brás Marques e apenas para dizer que "não se trata de uma investida na temática da "História Alternativa", um sub-tema tão querido ao universo da ficção científica". Este senhor claramente nunca leu Ficção Científica. Ninguém, fossem jornalistas, críticos ou leitores foram capazes de dizer que este é um livro de Ficção Científica. Acho este facto triste, triste porque mostra que as pessoas ou não conhecem o suficiente do género da Ficção Científica para o reconhecerem ou então tem preconceito em dizer e classificar este livro, ou outro que esteja na mesma situação, como Ficção Científica. Tenho muitas duvidas que a senhora Maria do Rosário Pedreira não saiba reconhecer um livro de Ficção Científica quando lê um. Tenho pena que tenham classificado este livro como sendo um romance de Literatura Lusófona, apenas por razões de marketing e medo da reacção da pessoas que tem "nojo" da Ficção Científica. Assim essas pessoas "comeram" e ainda elogiaram o "chefe", se lhes tivessem dito o que era verdadeiramente, tinham largado o livro assim que vissem esse sinal de estigma que é pertencer à Ficção Científica. À imagem do que foi feito com o nosso Nobel, José Saramago, fica mal dizer que é Ficção Científica, é mais "chique" dizer que se trata de um "alegoria".
Algumas pessoas dirão que este livro fala das pessoas, dos seus problemas, de como se as circunstancias fossem diferentes também as suas decisões o seriam, e não de Ficção Cientifica com as suas naves espaciais e laseres, ao qual eu só posso responder que a ignorância é realmente muito, muito triste. Quem assim falar certamente que nunca leu as grandes obras que a Ficção Científica tem para oferecer. Mostrar-lhes ia, e para não sair das viagens no tempo e historia alternativa, pelo menos quatro livros que tem um estrutura muito similar à de "A Manha do Mundo".
Mostrava-lhes "A Segunda Manhã do Mundo" (Presença 2004) de Manuel de Pedrolo, onde depois de todo o planeta Terra ter sido destruidor, por extraterrestres(?), ainda que nada disto seja descrito, os sobreviventes Humanos praticamente se resume a uma rapariga de 14 anos e um rapaz de 9 anos, e do que eles tem de fazer para sobreviver, de como naquele novo mundo as suas decisões de outrora tem de ser revistas.
Mostrava-lhes "E Tudo o Tempo Levou" (Clássica 1992) de Ward Moore, onde nos é apresentado um mundo onde a Guerra Civil América foi ganha pelo Sul, somos levados a conhecer um mundo diferente e igual na mesma medida, mas que devido a um pequeno erro se transforma na nossa linha temporal.
Mostrava-lhes "Eis o Homem" (Saída de Emergência 2007) de Michael Moorcock onde um homem regressa ao tempo de Jesus Cristo, onde descobre que este é um atrasado mental, e não só, e ao invés de deixar que se crie uma nova linha temporal e aceita a cruz de se oferecer em sacrifício para que a historia que ele conheceu continue igual.
Três livros, e mais exemplos poderiam ter sido dados, que muito tem em comum com "A Manhã do Mundo" excepto claro o facto de uns terem assumido o que são e o outro não, escondendo-se de modo covarde e com a conivência de quase todos, sob o rotulo de Literatura Lusófona.
Entristece-me a falta de coragem quer do autor quer da editora em assumir o género da Ficção Cientifica, pois é um dos ricos que existe. Entristece-me que saber que amanha nada terá mudado.
