Nunca, como agora lemos tanto, mas ao mesmo tempo nunca o que lemos foi tão conciso. A moda começou nos telemóveis com o advento das mensagens, as Short Messege Service (SMS) e o seu limite de 160 caracteres, e com o tempo foi evoluindo. Nos jornais e revistas, salvo raras excepções, os artigos são cada vez mais curtos e sintéticos, as pessoas querem as noticias como querem o café, curto e para levar que tempo é dinheiro.
As redes sociais, também não ajudam, estando o twitter à cabeça com o seu limite de 140 caracteres que até já serviram para escrever livros(?!). Os blogs também não escapam a esta tendência e os texto curtos são a regra. O (nosso) Nobel da Literatura, José Saramago chegou a dizer sobre o twiter: "Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau vamos descendo até ao grunhido".
Mas o que é uma regra sem uma excepção? Pois bem essa excepção pode ser encontrada na Literatura Fantástica.
Para os leitores de Literatura Fantástica a regra são as sagas (intermináveis) e/ou o calhamaço. No inicio a Literatura Fantástica vivia (principalmente) do conto, os grandes escritores de outrora começaram as suas carreiras pelo conto, mas hoje em dia o conto quase que é desprezado. A revista Bang! é a única, profissional, no panorama nacional que vai publicando contos e vamos tendo algumas fanzines de carácter amador também.
Das três colecções dedicadas ao Fantástico em Portugal, a Via Láctea (Presença), já com mais de 100 titulo apenas tem um livro que se aproxima, "O Último Desejo" de Andrzej Sapkowski. A colecção 1001 Mundos (Asa) tem três, a recente antologia de ficção cientifica "Fantasporto" de vários autores e com a organização do Rogério Ribeiro, e duas antologias de autores nacionais, o excelente "As Atribulações de Jacques Bonhomme" de Telmo Marçal, e claro "Se Acordar Antes de morrer" do grande João Barreiros. E por ultimo a colecção campeã, a Bang (Saída de Emergência), que entre as antologias subordinadas a um tema (cinco), e as dedicadas a um autor (cerca de 30, embora alguns possam ser discutíveis) já leva um bom avanço às suas concorrentes. Já sei o que muitos estarão a pensar neste momento, mas devo avisar que estes livros de contos muito raramente tem sucesso e/ou são alvo de reedições, muitas vezes apenas são editados por casmurrice de editores saudosos.
O conto é então umas das melhores formas de contar uma história, pois não se pode alongar, não se pode "distrair" com banalidades, tendo de se concentrar no que realmente importa, a história. Já as sagas muitas vezes ou se "perdem" ou vão dar a volta pelo caminho mais longo.
A saga e o calhamaço respondem à nossa "fome" de sabermos mais um pouco de mundos que nos encantaram, mas sem que tal seja sinonimo de algo novo, muitas vezes acaba por ser mais do mesmo. O conto é o essencial, nem mais nem menos, e é uma pena que o publico mais jovem não pareça saber o que anda a perder.
Deixo um link para o livro de contos vencedor do prémio Caminho Ficção Cientifica em 1991, "O Futuro à Janela" do Luís Filipe Silva e que na introdução, apropriadamente intitulada "A Importância do Conto" o seu autor defende o conto de uma maneira que eu apenas posso invejar. Leiam, não só a introdução, mas também os contos e saibam do que esta magnifica forma de contar uma historia é capaz.
O Futuro à Janela de Luís Filipe Silva
PS: Numa nota algo ironica, no dia em que escrevo estas palavras, o prémio Camões é atribuído a Dalton Trevisan, também conhecido como mestre do conto. Afinal talvez ainda exista esperança...