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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Opinião - O Poder de Naomi Alderman



Confesso que tinha grandes expectativas para este livro e isso geralmente acaba por não correr bem. A ideia que lhe serve de base deixou o leitor que sou a "salivar" em antecipação. No seu todo achei o resultado interessante, mas com alguns reparos que poderia ter tornado o livro ainda melhor, na minha humilde opinião claro.





Para começar este é um livro dentro de um livro. Confusos? Permitam-me explicar: o livro começa num futuro (muito) longínquo em que se inverteu a dinâmica de poder. Neste tempo são as mulheres quem mandam.  A autora introduz-se no livro como personagem, uma editora que tem de avaliar um livro de um homem que escreveu um romance histórico fantasiado sobre como ocorreu a transformação da sociedade baseado nas provas arqueológicas que tem à sua disposição. O que vamos ler é esse livro. Portanto é uma ficção dentro de uma ficção. Não sei bem o que sentir sobre esta "artimanha". Já tinha visto algo muito similar a ser utilizada há muitos anos num livro que me deixou saudades: "A Segunda Manhã do Mundo" de Manuel de Pedrolo.

Somos pois transportados para essa ficção baseada em factos verídicos desse futuro mundo, ou tão perto disso quanto possível.  Neste mundo ficcionado ao quadrado somos levados ao inicio. É-nos mostrado, como as mulheres começaram a ganhar o Poder, das rápidas e não tão rápidas mudanças na sociedade. A autora tenta a difícil tarefa de balançar a macro e a micro história, o pessoal e o mundial  e acho que se sai bem.

Como homem confesso que senti falta de mais um personagem masculino para nos mostrar mais o outro lado, mais outro ponto de vista. Tunde é um personagem interessante e do qual gostei, mas achei que fazia falta um tipo "normal", como um marido, pai, irmão ou filho, um Zé Manel, com que os leitores masculinos se pudessem ligar. 

No fim fiquei com a sensação de que a autora podia ter ido um pouco mais longe, mostrado mais pontos de vistas. Optou por se ficar por menos, longe de ser algo mau ou bom, foi uma decisão que teve de ser tomada. Seria este livro melhor com mais pontos de vista? Um pergunta interessante, mas que dificilmente terá resposta. 

Voltando ao que disse no inicio as expectativas podem ser tramadas e acho que foi isso que me aconteceu. Gostei do livro, mas sinto que teria desfrutado mais se não tivesse as expectativas tão elevadas. Ainda assim é um livro que recomendo. 

Título - O Poder
Autores - Naomi Alderman
Colecção Bang! n.º 286
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Sónia Maia

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Opinião - Coração Negro de Naomi Novik



Este é um livro de leitura segura. Longe de ser uma critica negativa é apenas a constatação de um facto. Não esperem encontrar neste livro a "invenção da roda" no que à literatura Fantástica diz respeito. Chamo-lhe uma leitura de conforto, mas falemos da história. 

Um feiticeiro escolhe uma rapariga a cada dez anos em troca de proteger o vale do maléfico Bosque, claro que a última escolha do feiticeiro, que se chama Dragão, é Agnieszka, mas ela não foi a escolha que se esperava. Agnieszka é, como não podia deixar de ser muito mais do que à partida parece. A partir daqui a história segue o habitual roteiro em que a jovem descobre que não só é uma bruxa, mas também que é mais poderosa do que parecia, revelando ainda que tem capacidades que mais ninguém tem. Como não podia deixar de ser vai fazer a habitual viagem de descoberta, literal e metafórica, que a levará a salvar o Vale. Como disse no inicio esta é uma leitura de conforto onde existe uma familiaridade com cada capitulo, com cada palavra. Não surpreende, mas existe nesta sensação de "já li isto" um agradável sentimento de estarmos em território conhecido. Nem sempre quero ser espantado, às vezes quero simplesmente a segurança do comum.

Não tendo ficado propriamente longe do habitual, ainda assim houve uma quase que surpresa com o final. A autora em vez de nos dar aquele final feliz em que tudo acaba bem dá-nos um final mais real. O maléfico Bosque caminha para a cura, mas ainda vai demorar tempo até o Mal ser vencido. Podia ter feito um passe de magia e ter dito que estava tudo bem e  que o Bosque estava curado, mas preferiu dar um final mais realista e isso foi algo que (muito) me agradou.

Resumindo e concluindo foi uma leitura agradável, principalmente o final, mas tenho quase a certeza que não me irá ficar na memoria. Existem livros que, e sem desprezo por eles, servem para colmatar o espaço entre os grandes livros da nossas vidas e este é um deles.


Título - Coração Negro
Autores - Naomi Novik
Colecção Bang! n.º 295
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Sérgio Gonçalves

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Opinião - Quem teme a Morte de Nnedi Okorafor



Vamos começar pelo fim: não gostei deste livro. Bem sei que esta minha opinião vai em contra ciclo às opiniões que tenho lido. Suponho que seja a idade e tudo o que ela acarreta para um leitor que já muito leu e já não se impressiona, ou não se deixa impressionar com o comum e o vulgar. E por muito que um certo grande nome da literatura tenha não só gostado, mas levado esta obra para o pequeno ecrã isso no fim não faz com que ela seja melhor aos meus olhos (talvez a serie na tv me cative mais).

Mas foi assim tão mau perguntaram vocês? A resposta a essa questão é as expectativas podem ser tramadas e por norma são no mesmo. Quando nos "prometem" uma África pós-apocalíptica devastada por um holocausto nuclear esperamos encontrar uma África pós-apocalíptica devastada por um holocausto nuclear, mas isso não é mencionado em lado nenhum do livro à excepção da contra-capa, portanto perdoem-me se fiquei um "bocadinho aborrecido".

Não esperava que este livro redefinisse o género, mas quando temos nas mãos um livro que ganhou o World Fantasy Award espera-se algo especial. O que acontece aqui é mais um livro que se "agarra" à "velha" fórmula de escrever histórias de Fantasia e que segue passo a passo todos os clichés a que já estamos habituados. Uma profecia, um herói ou neste caso uma heroína, uma viagem, etc, etc... Personagens mal desenvolvidas,  unidimensionais e isso nem chega a conseguir descrever algumas. Mesmo alguns aspectos que me tocaram e conseguiram chocar, em especial a parte da mutilação genital feminina perde todo e qualquer significado quando é revertida como se nada fosse. E muitas outras pequenas coisinhas.

Houve momentos em que tive de me obrigar a continuar com a leitura deste livro e não foram as  expectativas, mas sim a qualidade intrínseca do livro.

Esperava mais, muito mais, mas a vida é mesmo assim.

Tento terminar numa nota positiva, se é que lhe podemos chamar assim. Quem sabe se algum dia, num futuro longínquo, volto a pegar e a ler este livro e mudo a minha opinião






Título - Quem teme a Morte
Autores - Nnedi Okorafor
Colecção - Bang! n.º 289
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Teresa Martins Carvalho

domingo, 15 de outubro de 2017

Opinião - Mulheres Perigosas (Antologia)




Mulheres Perigosas é mais uma antologia de contos organizados por George R. R. Martin, que também contribui com um conto, e Gardner Dozois na esteira de outras antologias já editadas pela editora Saída de Emergência. A premissa, tal como vem descrito na contra-capa é a de que neste livro vamos encontrar "mulheres guerreiras que brandem espadas, intrépidas pilotos de caças, formidáveis super-heroínas, femmes fatales astutas e sedutoras, feiticeiras, más raparigas duronas, bandidas e rebeldes, sobreviventes endurecidas em futuros pós-apocalípticos, rainhas altivas que governam nações e cujas invejas e ambições enviam milhares para mortes macabras, mulheres que não hesitam em assumir a liderança para defenderem aquilo em que acreditam" por oposição ao estereótipo das "mulheres infelizes ficam a choramingar de pavor enquanto o herói masculino combate o monstro ou choca espadas com o vilão". O problema é que esta promessa não é cumprida na totalidade e alguns contos chegam mesmo a mostrar "mulheres infelizes e a choramingar".

A antologia começa muito bem com o conto de Joe Abercrombie "Completamente Perdida" com uma mulher verdadeiramente perigosa como o titulo promete. A primeira senhora desta antologia é Mega Abbott com "Ou o Meu Coração Destroçado" num interessante policial de uma mãe a quem a filha desaparece, onde vemos um mulher perigosa é verdade, mas de uma maneira muito diferente do primeiro conto. Melinda M. Snodgrass é a senhora que se segue com "As Mãos Que Não Estão Lá" e também o primeiro conto de Ficção Científica. Carrie Vaughn faz com que regressemos novamente à Terra com "Raisa Stepanova" em que nos mostra as mulheres soviéticas que durante a Segunda Grande Guerra pilotaram aviões (caças) ao lado dos homens num história que nos mostra acima de tudo que a História está pejada de grandes mulheres.

Eis que chegamos ao conto que "estraga" tudo: "Eu Sei Escolhê-las a Dedo" de Lawrence Block (que ironicamente também parece ter sido escolhido a dedo). O autor até pode ser um grande escritor e o conto está bem escrito, mas este conto está completamente "fora de água" e o que faz nesta antologia é um mistério.

Como para nos fazer esquecer o erro de "casting" anterior os antologistas dão-nos Brandon Sanderson com o conto "Sombras para Silêncio nas Florestas do Inferno". Confesso que não tinha este autor em grande consideração, mas este conto fez ver que posso estar (muito) enganado e este conto é um realmente muito bom, em todos os aspectos, seja na narrativa ou história.

Segue-se mais uma conto baseado na Historia, neste caso da Rainha Constança de Hauteville, com  "Uma Rainha no Exílio" de Sharon Kay Penman. 

Lev Grossman dá-nos "A Rapariga no Espelho" um conto com travo ao Universo de Harry Potter, mas que foi um gosto ler.

Sam Sykes tenta "Dar Nome à Fera" num conto que mostra que ser mão é mais do que parir.

Caroline Spector e "As Mentiras Que a Minha Mãe Me Contou" foram uma surpresa porque não estava à espera de encontrar nas paginas desta antologia um conto passado num outro Universo que o Martin também ajudou a criar: Wild Cards. Apesar de não estar publicado entre nós (espero que um dia isso venha a acontecer) já o conhecia este Universo por alto e tinha alguma curiosidade em saber mais sobre ele e este conto foi uma agradável maneira de começar.

E claro que ficou para o fim o ansiado e muito aguardado conto do George R. R. Martin intitulado "A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes". Admito que apesar de gostar de conhecer sempre mais do Mundo que é Westeros este conto ficou um pouco aquém das minhas expectativas, não pelas informação revelado, mas pela maneira como o Martin escreveu o conto, que parece ter sido escrito por um meister, faltando-lhe algum "sal". Não está mau e tenho a certeza que satisfará os muitos leitores e fãs do Martin. Existe um outro ponto a rever em futuras reedições a existirem: o tradutor (e por inerência da revisora) traduziu o nome de um dos Sete deuses de Westeros mal, em vez de termos o Estranho temos o Forasteiro. Um erro de palmatoria por vários motivos e facilmente evitável.




Esta foi uma boa antologia com contos acima da media sem que exista um que eu possa afirmar que seja mau. Existem histórias para todos os gostos e em vários géneros . O único ponto negativo é alguns contos se afastarem do que o titulo promete, em especial  "Eu Sei Escolhê-las a Dedo" de Lawrence Block.

Resta esperar que segunda parte desta antologia chegue depressa.


Título - Mulheres Perigosas
Autores - Joe Abercrombie, Mega Abbott, Melinda M. Snodgrass, Carrie Vaughn, Lawrence Block, Brandon Sanderson, Sharon Kay Penman, Lev Grossman, Sam Sykes, Caroline Spector, George R. R. Martin
Colecção - Bang! n.º 272
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Rui Azeredo




domingo, 6 de novembro de 2016

Opinião - As Primeiras Quinze Vidas de Harry August de Claire North

Quando o meu bom amigo Fiacha disse que iria ler "As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" da escritora Claire North eu achei que era a desculpa perfeita (e sim às vezes precisamos de uma boa desculpa) para também eu ler e assim darmos (quase ao mesmo tempo) a opinião sobre o mesmo livro.



"As Primeiras Quinze Vidas de Harry August" da escritora Claire North é um daqueles livros deliciosamente estranhos O título diz ao que vem e não é uma metáfora qualquer sobre uma vida parecer muitas, não, aqui vamos mesmo conhecer um tipo que vive (pelo menos) quinze vidas e o seu nome é August, Harry August (não consegui evitar a piada e além disso numa das suas vidas ele foi um agente secreto, portanto estava mesmo a pedi-las). O Harry faz parte de uma raça (acho que podemos pensar assim) de pessoas, os Kalachakras ou Ouroborianos, que quando morrem renascem novamente para a mesma vida, mas com as memórias das suas vidas anteriores intactas. O conceito não é propriamente novo, mas a maneira como a Claire North (um do pseudónimos de Catherine Webb) trata o assunto é realmente de louvar.
A narrativa é feita na primeira pessoa pela voz do Harry August e é ele que nos vai guiar pelos prazeres e dissabores, porque isto de viver muitas vidas não é só pontos positivos em especial para quem nasceu em mil novecentos e dezanove (como o galo), de quem retorna ao ponto de partida de cada vez que morre. Só isto seria só por si suficiente para termos um livro interessante, mas a sua autora vai um passo mais longe e junta um vilão ou será um antagonista, ou outro adjectivo que me falta? O facto de não ter a certeza (muito longe disso) de qual o melhor termo para descrevo-lo já diz muito sobre a complexidade da história o que eleva este livro a um patamar ainda maior. Só para vos dar uma ideia desta complexidade quando começam a ler o livro não dão por isso. Confusos? Pois eu também fiquei. Percebo agora, mas foi preciso ter chegado ao fim, mesmo ao fim, do livro para perceber. É Ouroboros a serpente que morde a própria cauda (sim sim, aqui o menino saber consultar a Wikipedia).

Como podem já ter lido na contra capa ou no site da Saída de Emergência tudo começa "aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se". Pessoalmente acho que este evento é mais um catalisador do que o começo, mas também não vou ser picuinhas. Ora isto só poder estar a acontecer porque um Kalachakra se está a portar muito mal e anda a alterar o normal desenvolvimento da história e como vamos descobrir existem precedentes do quanto isto pode ser perigoso. Não vou e nem quero estar aqui a estragar-vos a história revelando alguns dos pontos de interesse da mesma. Será suficiente dizer que esta foi uma leitura que me deu muito gosto. Tanto assim foi que para mais rapidamente avançar (e também para vencer o Fiacha...) li em português (e em formato fisico) em casa, e fora de casa em inglês em formato digital no telemóvel, aproveitando assim todos os momentos possíveis. 


Para não dizerem que só disse bem do livro aqui fica uma "coisa" que eu acho que irá "afastar" alguns leitores: as divagações de Harry August. A narrativa não é exactamente linear, bem mais ou menos. Começamos no ponto A e terminamos no ponto Z, mas para lá chegar andamos um bocadinho aos saltos, ao sabor das marés da memória do Harry. Tudo fará sentido, mas sabendo que muitos leitores não gostam deste tipo de "artimanhas" narrativas deixo já o aviso. Apesar de pessoalmente gostar deste tipo de "truque" narrativo, achei que existiram momentos em que eles não eram necessários. Apesar de enriquecerem a história, no seu todo travam o embalo da narrativa, como se fossemos num carro que alterna a aceleração com travagem bruscas para irmos devagar (esta analogia não me saiu bem, mas vocês perceberam).


Capa da Edição da colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica 

E agora um pequeno apontamento sobre as edições. Ao contrário da edição "oficial"  da Saída de Emergência e que é a edição do Fiacha (e da qual podem ver a capa logo no topo deste texto) a minha edição foi integrada na colecção Admiráveis Mundos da Ficção Científica fruto de uma parceria entre a SdE e o jornal Público e que foi publicada em Abril deste ano, e aquando da saida, este livro era o único inédito da colecção. Para além de uma capa diferente esta edição conta ainda com um magnifico prefácio da Inês Botelho e um posfácio do Nuno Galopim que, a julgar pelo excerto no site da Saída de Emergência, também está presente na edição "oficial" o que é uma mais valia.

Em jeito de conclusão este é um extraordinário livro e que merece sem sombra de dúvida a vossa atenção e tem o selo de aprovação do João Barreiros. Dúvidas? Não há nem pode haver.

Título - As Primeiras Quinze Vidas de Harry August
Autor - Claire North
Colecção - Bang! n.º 242
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Casimiro da Piedade

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Opinião - Os Três de Sarah Lotz



Interessante é sem dúvida o adjectivo apropriado para definir "Os Três" de Sarah Lotz. Este é um livro que foge às habituais regras que regem a escrita de um livro de ficção. Ao invés do habitual narrador omnipresente e omnisciente e de uma narrativa cronologicamente linear, temos um conjunto de entrevistas, reportagens de jornais, chats na Internet e outras fontes de informação transcritas que no seu conjunto formam (quase) um livro dentro do livro. A autora deste livro dentro do livro é a jornalista Elspeth Martins que reconstitui o que aconteceu na Quinta-feira Negra e os eventos que se lhe seguiram. Quinta-feira Negra foi o nome que foi dado ao desastre de quatro aviões no mesmo dia. Da desgraça desse desastre três crianças sobrevivem naquilo que muito dizem ser um milagre. Assim vamos acompanhando o mundo pelos olhos e descrições dos familiares, amigos ou outras pessoas que foram afectadas directa ou indirectamente pelas três crianças e pelos desastres.

Confesso que houve uma pergunta que ecoou no fundo da minha mente enquanto lia o livro. Nunca foi "ruidosa", nunca me desconcentrou, quando muito, apenas aguçou mais a curiosidade. A pergunta era: "Onde está o elemento, seja de Fantasia ou de Ficção Científica, que qualifica este livro como sendo da colecção Bang?" Ora a resposta só chega no fim, literalmente no fim e é uma resposta que deixa mais perguntas que respostas. Não é o tipo de final que me agrade, gosto que o autor deixe tudo "arrumadinho" nada de pontas soltas, mas neste caso acho que esse fim ainda torna o livro melhor, como um último elemento que faz sobressair (mais) o todo. 

A simplicidade com que a autora nos prende ao livro é incrível. Aqui não temos os habituais truques de narrativa em que o autor "corta" o capitulo mesmo antes de uma qualquer "grande" revelação ou desenlace deixando-nos presos para saber se esta ou aquela personagem morreu ou outra situação similar. Não, aqui não há nada disso, ao invés disso a autora faz algo mais subtil, vai-nos deixando migalhas. Estas migalhas não são logo perceptíveis, apenas quando chegamos ao fim (ou perto disso) é que damos conta que fomos manipulados e admito que sabe bem. E repare-se que ela faz tudo isto apenas com textos que simulam conversas, muitas vezes de pessoas que na vida real seriam tudo menos interessantes. 

Fazendo um jogo de palavras com o elogio que Stephen King faz ao livro na capa e contra-capa posso afirmar que este é um livro magnificamente interessante ou interessantemente magnifico fica à vossa consideração para escolha. Só tenho pena que a Saída de Emergência não lhe tenha dado um maior destaque pois ele bem merece.








Título - Os Três
Autor - Sarah Lotz
Colecção - Bang! n.º 232
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - José Manuel Lopes

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Opinião - A Esposa Minúscula de Andrew Kaufman



Diz o ditado que as pessoas não se medem aos palmos e o mesmo se pode dizer dos livros. Um bom exemplo disso é este "A Esposa Minúscula" de Andrew Kaufman com meras cento e vinte páginas, uma descomunal letra de medida doze (ainda por cima com muitas paginas ilustradas) e um tamanho que rivaliza com os livros de bolso (já vi livros de bolso maiores). Mas se o seu aspecto exterior é pequeno o que está lá dentro extravasa largamente a "embalagem" em que vem contido. A  história é peculiar, mas deixou-me (logo) curioso, mas nada como lerem a sinopse para julgarem:

"Um ladrão entra por um banco dentro armado com uma pistola pronta a disparar, mas não pede dinheiro. Em vez disso, exige a cada cliente o objeto que tenha para si maior significado. O ladrão parte e todas as vítimas do assalto sobrevivem, mas coisas estranhas começam a suceder-lhes pouco depois: a tatuagem de uma sobrevivente salta-lhe do tornozelo e persegue-a; outra acorda e descobre que é feita de rebuçado; e Stacey Hinterland descobre que encolhe, gradualmente, um pouco a cada dia que passa, e nada que o marido ou o filho possam fazer conseguirá inverter o processo. A Esposa Minúscula é uma fábula sobre como podemos perder-nos nas circunstâncias e encontrar-nos no amor de outra pessoa."


Pois é não é um convencional livro de Fantasia e só isso já me deixa curioso, mas se uma boa ideia é meio caminho para me prender foi a capacidade do seu autor para contar esta historia que me deixou rendido. O narrador é o marido de uma das vitimas deste (no mínimo) invulgar assalto. É através do seu conhecimento em "segunda mão", pois ele não estava presente no assalto e nem o presenciou de longe, o que ele transmite é o que a esposa sabe e lhe conta, que vamos descobrir as consequências deste singular assalto.
O que me marcou foi a mistura graciosa entre o quotidiano de uma vida como a que qualquer um de nós leva e o fantástico das situações que se vão sucedendo, como ter uma tatuagem de um leão que de repente ganha vida e nós persegue, e esta nem é a mais estranha...
Como será óbvio ficamos com a vontade de saber mais pormenores, como quem é o assaltante por exemplo, mas este sentimento não é diferente de ler uma livro de mil paginas, o leitor curioso quer saber sempre mais.
Existem livros que devido ao seu tamanho (mas não só) demoram bastante tempo a ler, mas dos quais nos esquecemos (quase) logo a seguir. "A Esposa Minúscula" de Andrew Kaufman é um excelente exemplo de uma leitura que se faz rapidamente (cerca de uma hora, hora e meia), mas que fica connosco muito para lá disso, e isso diz muito de um livro. Até a minha esposa, que é um pouco avessa ao Fantástico leu e gostou (muito) e este é o melhor elogio que posso fazer a um livro, mostrar que ele transcende o género em que nasceu e agrada a uma miríade de leitores. Portanto aventurem-se também.


Título - A Esposa Minúscula
Autor - Andrew Kaufman
Colecção - Bang! n.º 225
Editora - Saída de Emergência
Tradutor - Renato Carreira

domingo, 19 de outubro de 2014

Opinião - Lisboa no Ano 2000 (Antologia)



Quando na revista Bang! n.º 10 apareceu o desafio para esta antologia e depois de ter lido várias vezes os pressupostos em que assenta este universo Electropunk, a única coisa que me vinha à mente era: "Isto é estúpido!". Não parava de pensar em como já vivemos num mundo movido a electricidade, os electrodoméstico, os comboios até os carro já estão a caminhar a passos largos nesse sentido, portanto onde estava a inovação? Mas lá resfriei o meu negativismos (e falta de imaginação) e decidi dar uma oportunidade a esta antologia, até porque ao leme vai o João Barreiros e isso para mim é mais que suficiente para lhe dar o beneficio da duvida, e claro que gosto de falar, bem ou mal, com propriedade, e claro que não fiquei nada desiludido com o resultado final, mas vamos por partes.



Prólogo - (Acho que) Percebo o que o João Barreiros tentou fazer aqui: unificar este universo e embora engraçado o modo como foi escrito continua-me a parecer estranho e sendo totalmente sincero desnecessário.


O Turno da Noite de João Barreiros - Quando li "O Turno da Noite" na revista Bang! n.º10 e novamente nesta antologia "assustei-me". Parecia a escrita do João Barreiros, as temáticas são as típicas do João Barreiros, mas há ali um travo a "metafisica", para não dizer fantasia (heresia!!!) que o meu paladar estranhou logo. Mas passado o "choque" temos mais uma excelente texto bem à maneira do Barreiros e que é uma delicia para quem, como eu, aprecia o seu trabalho.


Venha a Mim o Nosso Reino de Ricardo Correia - Gostei bastante do inicio, mas a partir dai foi sempre a descer. Temos um espécie bispo da IRUD lá do sitio, feiras-ninjas e um robô gigante, mas de alguma forma não vi o puzzle encaixar.  Por exemplo achei as freiras-ninjas um toque interessante e com o seu quê de cómico, mas aparecem ali quase "caídas do céu". 


Os Filhos do Fogo de Jorge Palitos - Um conto interessante que me pareceu ter alguns elementos (inspiração) do livro "O Prestigio" de Christopher Priest (e não digo isto com conotações negativas). A imortalidade não é propriamente a temática, mas sim o Carpe Diem e uma experiência que corre muito mal. Gostei quer da temática quer do tom embora ache que devia ter sido mais "polido".


Dedos de AMP Rodriguez - Um conto com um humor subtil e muita critica social devidamente embrulhados numa investigação de estranhos acidentes de trabalho. Gostei bastante do personagem principal, que é também narrador e da sua maneira de ver o mundo, ou neste caso a resignação a que se vota.


As Duas Caras de António de Carlos Eduardo Silva - Um conto de espiões como se estivéssemos na Segunda Grande Guerra, com agentes duplos (ou mais) ao serviço quer de Portugal, quer da Germânia, e um final muito bom, alias todo o conto está bem escrito e no "tom" certo. 


Electro-dependência de Ana C. Nunes - O uso da electricidade como uma droga foi uma ideia bastante interessante, mais ainda a de utilizar um humano com poderes e que também é capaz de a "injectar", embora não seja o único método. Um conto cheio de ideias interessantes e bem aproveitadas pela seu autora que nos dá um final muito bom.


Nanoamour de Ricardo Cruz Ortigão - Um autor que afinal são dois e um conto que fala de amor e tal como o anterior dá uma nova roupagens ao algo bem antigo, neste caso as poções de amor, mas claro que devidamente adaptadas a um mundo onde a electricidade é rainha e senhora. Um final muito bom e que me deixou com um sorriso nos lábios.


Energia das Almas de João Ventura - O João Ventura é um escritor já com calo e isso está bem patente neste conto. A ideia base deste conto é bastante interessante e tem por base o trabalho do medico Duncan MacDougall sobre o peso das almas devidamente "misturado" com uma das premissas do conto "O Turno da Noite" do João Barreiros, a dos seus mortos que se alimentam do vivos. Ainda consegue lá introduzir o trabalho de Albert Einstien. 


Fuga de Joel Puga - Um conto interessante, mas mais pela critica que faz ao mundo literário actual em que apenas se publica mais do mesmo ao sabor das modas que vão aparecendo. O personagem principal é Tércio um programador que tem um trabalho rotineiro que mata qualquer iniciativa e criatividade e que sonha em ser escritor. O final reflecte o nosso estado literário actual.


Tratado das Paixões Mecânica de João Barreiros - Mais um magnifico conto do João Barreiros em que ele regressa a alguns dos seus temas por excelência, brinquedos, a invasão da (Fortaleza) Europa por África, neste caso uma autofábrica que quer assentar arrais na Caparica. Um conto "à" Barreiros e o meu preferido dos três aqui apresentados. Um final que me agradou bastante pelo humor.


O Obus de Newton de Telmo Marçal - Já conhecia os trabalhos do Telmo Marçal publicados na internet e claro o seu "agrupar" no excelente livro que é "As Atribulações de Jacques Bonhomme" (e que por estes dias está estupidamente barato portanto aproveitem), mas este conto foi uma surpresa. O tom do conto não condiz com a imagem que tenho do autor. Longe de ser algo que me tenha degradado foi com muito gosto que descobri esta nova faceta do autor. Com um prosa muito "literária" e uma história complexa lá fui desbravando as páginas. Para uma antologia que ser queria ambientada em Lisboa este conto passa lá muito pouco tempo, mas isso pouco interessa quando somos confrontados com a sua excelsa qualidade.


Ex-Machina de Michael Silva - A electroesfera esconde coisas para além da imaginação do homem e neste conto vamos descobrir o quanto elas podem ser assustadoras. Um conto com ideias interessantes, nota-se ali a "mãozinha" de H. P. Lovecraft, e uma escrita com bons apontamentos de humor.


A Rainha de Pedro Vicente  Pedroso - Se existe animal que está ligado à electricidade é a enguia, a eléctrica claro e neste conto temos uma espécie de Capitão Ahab à procura da sua Moby Dick em forma não de baleia, mas de enguia eléctrica nas turvas águas do Tejo. Uma ideia interessante e bem desenvolvida pelo Pedro Vicente Pedroso. 


Taxidermia de Guilherme Trindade - É um dos contos que mais me surpreendeu nesta antologia porque não fazia ideia do que esperar mesmo até ao final e que final. Existem historia que por muito misteriosas que sejam nós vamos conseguindo descobrir o que se passa, mas aqui não o que apenas tornou a sua leitura ainda mais interessante. Sem duvida um dos melhores contos desta antologia em todos os aspectos.


Quem Semeia no Tejo de Pedro G. P. Martins - Um conto com algumas ideia interessantes, mas que poderia ter sido mais trabalhado e alongado. É um dos poucos contos com "ligação directa" ao conto de partida / inspiração desta antologia "O Turno da Noite".


Coincidências de Pedro Afonso - Coincidências é um conto interessante que nos permite ter uma visão bastante alargada do ambiente que se vive não só em Lisboa, mas também na Europa, através da relação entre um escritor e uma estranha mulher que ele conhece em igualmente estranhas circunstancias. 


Chamem-nos Legião de João Barreiros - E para finalizar com chave de ouro a terceira parte de "O que escondem os Abismos". Uma história contada através de duas linhas narrativas que se vão inevitavelmente encontrar, quanto ao resto bastará dizer que é escrito pelo João Barreiros


Epílogo - Se achei o Prólogo desnecessário o Epílogo não podia ser diferente.  



Como em qualquer antologia a qualidade dos contos varia (muito), mas de um modo geral os trabalhos apresentados estão em bom nível. Esta antologia está cheia de ideias interessantes, como alias me fartei de escrever, algumas muito bem aproveitadas outras nem por isso, mas só o facto de os autores terem revelado essa imaginação já é prometedor desta nova geração de autores.
Outro aspecto importante está na dificuldade em manter uma coesão histórica e cronológica comum e claro que com tantos autores algumas coisas falham e temos algumas variações sobre os mesmos temas como é exemplo as varias visões sobre a família real. Não é propriamente algo mau, mas a tentativa de unir este universo feita por João Barreiros no Prólogo e o Epílogo apenas acentua o quanto estas são prescindíveis. Sou da opinião que uma introdução e quem sabe um nota final tivesse sido uma aposta melhor.
Numa nota sobre a historia desta Antologia recentemente o "Tio" Barreiros comentou no Facebook que esta ideia é bem mais antiga do que eu tinha imaginado e que já vem da altura em que a colecção de FC da Caminho, a dos livrinhos azuis, mas os seus camaradas Portugueses (e Brasileiros) da colecção não olharam com muito bons olhos este universo partilhado. Mau para eles, mas bom para nós e para toda esta nova geração de autores que assim puderam brilhar na electroesfera. 


Por fim gostava de deixar aqui um pedido de desculpas em primeiro ao meu bom amigo Fiacha, que tão amavelmente me deu este livro e que apenas pediu em troca que eu desse a minha opinião, mas que foi algo que demorou a fazer, aos autores por ter escrito um opinião demasiado tempo depois de lido os mesmo, o que não me permitiu ter os pormenores tão "frescos" quanto o desejável (embora tivesse tirado algumas notas e relido na diagonal quando necessário) e claro ao leitores porque podia ter feito um trabalho melhor. A todos a minhas desculpas.



Título - Lisboa no Ano 2000
Autores - João Barreiros, Ricardo Correia, Jorge Palitos, AMP Rodriguez, Carlos Eduardo Silva, Ana C. Nunes, Ricardo Cruz Ortigão, João Ventura, Joel Puga, Telmo Marçal, Michael Silva, Pedro Vicente  Pedroso, Guilherme Trindade, Pedro G. P. Martins e Pedro Afonso.
Editora - Saída de Emergência
Colecção - Bang!

sábado, 4 de janeiro de 2014

Opinião - Windhaven de George R. R. Martin e Lisa Tuttle



Windhaven é uma incrível historia de Ficção Científica escrita a quatro mãos entre George R. R. Martin e Lisa Tuttle. A historia poderá, à primeira vista, parecer simples, mas a maneira como esta dupla a contou eleva-a. Uma das razões deve-se ao facto da história (quase) começar onde (quase) todas as outras terminam. Ainda o livro não chegou a um quarto e já Maris Amberly consegui realizar os seu sonho de se tornar uma Voadora. Quando isso aconteceu não pude de ficar surpreendido e dizer para mim "Já?! Então e agora?". Por norma os "heróis" tem de passar tormentas para conseguir atingir os seus objectivos, mas em compensação depois "vivem felizes para sempre", mas não é o caso neste livro. Maris consegue realizar o seu sonho, com algumas tormentas é certo, mas de modo ilusoriamente rápido. Ao conseguir tornar-se uma Voadora a sua luta apenas começou e ela vai ter de lutar (ferozmente) para conseguir não só conservar esse estatuto como também o estender a outros como ela. Este é para mim um dos factores que distingue este livro, ele acompanha esta e outras personagens pela sua vida fora. Este livro é mais que uma pedaço de historia do Planeta Windhaven, é a historia da vida de Maris Amberly, desde (quase) o seu inicio até ao seu fim. Vamos assistir, de um lugar privilegiado, às consequências de cada decisão de Maris e das repercussões que cada uma terá na sua vida, nas vidas dos que a rodeiam, mas acima de tudo na Historia de Windhaven.

Outro dos temas centrais deste livro é o colocar em causa as ideias preconcebidas, é fazer-nos pensar em todas aqueles dogmas que temos nas nossas vidas e sobre os quais nunca paramos para pensar. No caso deste livro Maris coloca em causa a passagem por hereditariedade, como se fosse um título nobiliárquico, das Asas dos Voadores, independentemente dos herdeiros as querem ou para isso terem as devidas capacidades. Isto, claro, irá provocar uma verdadeira revolução com tudo o que elas sempre trazem de bom e mau.
Outro ponto forte é a "construção do mundo" (mais conhecido pelo termo inglês Worldbuilding). Sem que nos seja "empurrado pela garganta a baixo" vamos conhecendo a história de Windhaven, o porque de haver os voadores, como lá foram parar os seres humanos. E tudo de uma que apenas nos dará vontade de saber mais.

Como não podia deixar de ser o nome que aparece em letras gordas em todo o lado é a galinha dos ovos de ouro da editora Saída de Emergência: George R. R. Martin, mas não se deixem enganar, porque embora não coloque em causa o seu enorme talento, muito pelo contrario, eu que já li tudo o que foi publicado por cá dele não deixei de reconhecer a enorme influencia que Lisa Tuttle teve no desenrolar e final da história. Se não fosse a Lisa Tuttle este seria com certeza um livro muito diferente e, sem duvida mais, pobre, bem pelo menos seria muito diferente. Para quem está familiarizado com a escrita do Martin certamente que notará que a habitual "brutalidade" que o caracteriza está lá, mas de um moda mais ameno, sem que com isso se perca o realismo. Está presente a intriga, mas com outros contornos, aqui, mais do que a intriga pela intriga, temos as Ideias e os Valores em constante combate. 

Publicada originalmente em 1981, mais de trinta anos depois chega finalmente aos leitores Portugueses. Quem espera encontrar "mais do mesmo" do Senhor Martin vais sair desiludido, mas se libertar desse "preconceito" tenho a certeza que vais gostar do que irá ler. É um livro que vende (?) porque tem lá o nome George R. R. Martin e para que não restem duvidas de quem se fala, se ainda as houvessem, está a frase na capa "Do mesmo autor de A Guerra dos Tronos". Digo isto porque este é um bom livro, mas que só terá a atenção de muitos leitores por isso, se tivesse apenas o nome de Lisa Tuttle na capa o mais certo era passar ao lado de uma boa parte de nós o que é um pena. Também nós temos de fazer como Maris e questionar os dogmas que nos acorrentam, primeiro em frente ao espelho e depois com outros para assim nos libertarmos deles.



Titulo - Windhaven
Autores - George R. R. Martin e Lisa Tuttle
Editora - Saída de Emergência
Colecção - Bang!
Tradução - Jorge Candeias